Rota Literária, Geografia Agustiniana

Uma Introdução

Desde os primeiros escritos que Agustina Bessa-Luís escolhe um lugar, uma casa, uma paisagem, para aí fazer circular os seus personagens. Não quer dizer que pertençam exclusivamente ali, poderiam existir noutros lugares, climas e sociedades, mantendo o comportamento e o destino. Porque o que se move é a alma, e essa habita todos os lugares e todos os tempos, ao mesmo tempo, sem neles se fixar para sempre. É isso que torna a sua obra intemporal, e não o local.

No entanto, e porque Agustina em nenhuma das suas obras se desprende de si própria, pareceu-nos que este exercício de seguir os rastos das suas paragens inspiradoras podia ser também um contributo memorialista da própria Agustina.

Assim, escolhemos para apontamentos da nossa viagem a cidade do Porto, o Douro e o Minho, deixando para outros roteiros outros caminhos percorridos na vasta obra de Agustina.

Imaginemos um passeio pelo mapa caminhando por aqui e ali, na companhia de uns e de outros, e nas suas falas; parando, para olhar uma rua, uma casa, um vale, uma ruína; ou para sentir um silêncio que nunca foi interrompido. É possível ainda localizar, lembrar, imaginar, e isso transporta-nos para dentro dos cenários, num convívio próximo e privilegiado.

Resta-nos agradecer à Fundação Millennium bcp, na pessoa do Dr. Fernando Nogueira, com quem foi assinado o protocolo de apoio mecenático a esta iniciativa que agora se concluiu e se apresenta ao público, com o desejo de que constitua mais uma nota que estimule a um novo convívio com Agustina.

Mónica Baldaque

Presidente da Direcção

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Geografia Agustiniana

Porto, Douro e Minho

PORTO

  • Brás-Oleiro, Águas Santas
  • Rua da Boavista
  • Jardim Arnaldo Gama
  • Terreiro da Sé
  • Rua da Pena
  • Rua do Barredo
  • Rua de Costa Cabral
  • Rua Formosa
  • Rua do Bonjardim
  • Rua D. Manuel II (no livro, Rua do Triunfo)
  • Rua de Sá da Bandeira
  • Rua 31 de Janeiro
  • Largo dos Lóios, passando pela Rua das Flores até ao Largo de S. Domingos
  • Praça da Ribeira
  • Rua das Virtudes
  • Rua de Cedofeita
  • Largo de Mompilher (antigo Largo da Picaria)
  • Rua do Breyner e Rua Miguel Bombarda
  • Alameda Basílio Teles
  • Praça dos Poveiros
  • Rua da Cerca
  • Praça da Liberdade (antiga Praça D. Pedro), o extinto Café Guichard; Praça da Batalha (antigo Largo de Santo Ildefonso), o extinto Águia d’Ouro
  • Rua de Santa Catarina
  • Largo da Ramada Alta
  • Calçada do Ouro
  • Rua da Pena
  • Rua Sampaio Bruno
  • Rua de Belomonte
  • Cemitério da Lapa


DOURO E MINHO

  • Rua Padre Teixeira de Carvalho, Ariz, Godim, Peso da Régua
  • Casa do Paço, Lugar de Travanca, Vila Meã, Amarante
  • Rua dos Camilos, Peso da Régua
  • Gervide e Lugar de Cales, Loureiro, Peso da Régua
  • Serra d’Arga
  • Vila Alice, Vilar do Paraíso, Vila Nova de Gaia
  • Quinta do Lodeiro, Baião
  • Santuário do Bom Jesus do Monte, Braga
  • Valadares, Vila Nova de Gaia
  • Fontelas de Cima, Peso da Régua
  • Quinta de Cavaleiros, Bagunte, Outeiro Maior, Vila do Conde
  • Margem do rio Cávado, Braga
  • Vale Abraão, Samodães, Lamego
  • Quinta do Vesúvio, Freixo do Numão, Vila Nova de Foz Côa
  • Quinta de Santa Júlia, Loureiro, Peso da Régua

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Bibliografia

  • A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (Guimarães Editores,1970)
  • A Ronda da Noite (Guimarães Editores, 2006. Relógio D’Água, 2018)
  • A Sibila (Guimarães Editores, 1954. Relógio D’Água, 2017)
  • As Fúrias (Guimarães Editores, 1977)
  • As Pessoas Felizes (Guimarães Editores, 1975. Relógio D’Água, 2019)
  • As Relações Humanas I: Os Quatro Rios (Guimarães Editores, 1964)
  • Caderno de Significados (Guimarães Editores, 2013)
  • Camilo: Génio e Figura (Editorial Notícias, 1994)
  • Contemplação Carinhosa da Angústia (Guimarães Editores, 2000)
  • Contos Amarantinos (Edições Asa, 1987)
  • Dentes de Rato (Guimarães Editores,1987. Relógio D’Água, 2017)
  • «Desconcertante Agustina: a propósito de Os Quatro Rios», Eduardo Lourenço, O Tempo e o Modo, (n.º 22, 1964, p. 112)
  • Deuses de Barro (Manuscrito de 1942. Relógio D’Água, 2017)
  • Elogio do Inacabado (Fundação Calouste Gulbenkian, 2014)
  • Ensaios e Artigos (Fundação Calouste Gulbenkian, 2017)
  • Fanny Owen (Guimarães Editores, 1979. Relógio D’Água, 2017)
  • Mundo Fechado (Coimbra; Mensagem, 1948. Guimarães Editores, 2004)
  • O Livro de Agustina (Guerra e Paz, 2000)
  • O Manto (Livraria Bertrand, 1961. Relógio D’Água, 2018)
  • O Princípio da Incerteza I: Jóia de Família (Guimarães Editores, 2001)
  • Os Incuráveis (Guimarães Editores, 1956, 2014. Relógio D’Água, 2020)
  • Os Meninos de Ouro (Guimarães Editores, 1983. Relógio D’Água, 2018)
  • Prazer e Glória (Guimarães Editores, 1988. Relógio D’Água, 2019)
  • Vento, Areia e Amoras Bravas (Guimarães Editores, 1990. Relógio D’Água, 2019)
  • Vale Abraão (Guimarães Editores, 1991. Relógio D’Água, 2017)

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Ficha Técnica

  • Pesquisa e conteúdos:
  • Lourença Baldaque

  • Revisão:
  • Anabela Prates Carvalho

  • Agradecimentos:
  • Mónica Baldaque
  • Dr. Miguel Cadilhe
  • Dr. Fernando Nogueira
  • Professor Gaspar Martins Pereira
  • Arquivo Histórico do Porto
  • Aos proprietários e responsáveis das casas referenciadas neste roteiro.
    Pela utilização de textos das obras de Agustina Bessa-Luís

  • Criação do microsite:
  • Bydas, Agência de Comunicação Digital

  • Um projecto do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís
  • Este trabalho teve o apoio mecenático da Fundação Millennium BCP.
  • Porto, Dezembro, 2020

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Deuses de Barro (1942)

Rua Padre Teixeira de Carvalho, Ariz, Godim, Peso da Régua

Foi na casa que pertencia à sua família, em Ariz, que Agustina Bessa-Luís escreveu, aos dezanove anos, Deuses de Barro.

Se a vista da casa era essencialmente do vale e do rio, hoje emoldura uma região mais urbanizada da cidade da Régua. E a estrada que conduz a Ariz, vinda de Godim, viu ser erigida, nas últimas décadas, uma arquitectura essencialmente residencial.

Também no romance Deuses de Barro já era notório um contraste entre os ambientes rural e urbano. E é em Ana e José Maria, amigos de infância, duas das personagens desta história, que este contraste é mais visível. Ana representa a vida na aldeia onde José Maria, vindo da cidade, passava as suas férias em família.

«‒ A aldeia dos convalescentes, desiludidos, misantropos, doentes‑sãos; dos conformados, dos rebeldes também; marasmo e não olvido. É a aldeia, isto. A aldeia que o espírito aprecia, que o corpo detesta…» ‒ diz José Maria.

Ou no narrador de Deuses de Barro, que vai equiparando o tempo vivido na aldeia com os costumes citadinos: «A cidade, o chá bisbilhoteiro, o cinema “educativo”, as casas de modas, os retalhos em conta… Ah! As mil e uma comodidades!… […] Até ao ano, cadeiras de lona, mesinha de vime sob a trepadeira, as secas glicínias… Até à volta, ribeiro e prado, montado e veredas, toque de Angelus, dobre de finados, mosteiro vetusto e sombrio! Adeus, férias torturantes, benditas férias de longas horas sem rumo, horas deliciosas sem preocupação.»

No mesmo ano em que concluiu o romance, Agustina enviou um dactiloscrito ao escritor Alberto de Sousa Costa pedindo-lhe um prefácio, porém Sousa Costa recusou prefaciar o livro numa longa carta enviada à autora, onde explicava as suas razões. Argumentou que Deuses de Barro «são a nebulosa, melhor, a antemanhã, de que há‑de sair o dia claro e luminoso» e que «representam o absoluto na negação iconoclasta. Eu creio em Deus, eu creio em Cristo ‒ princípios de todos os princípios, e causa de todas as causas». Agustina Bessa-Luís daria assim início à redacção de Mundo Fechado, o prolongamento de um mesmo olhar sobre a aldeia e a cidade, como em Deuses de Barro. Este romance, que veio a ser publicado em 2017, «representa já um grito de liberdade, ousadia, revolta e desafio contra os deuses de barro que nos vigiam, nos tolhem, com quem somos obrigados a conviver e a venerar». (Mónica Baldaque, no prefácio à edição de 2017)

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Mundo Fechado (1948)

Casa do Paço, Lugar de Travanca, Vila Meã, Amarante

N’O Livro de Agustina, a autora recorda a fase em que publicou o seu primeiro romance, Mundo Fechado: «Mandei o livro aos escritores mais famosos, Aquilino, Ferreira de Castro, Torga e Pascoaes. Responderam-me com entusiasmo, e a correspondência com Aquilino prolongou-se por alguns anos, sem que nunca nos tivéssemos encontrado. Torga foi mais prudente e evasivo, o que desencadeou a minha cólera. […] A carta de Pascoaes veio do mundo dos espíritos ter comigo, dois anos depois da morte dele. E eu disse que era natural, embora em segredo as coisas naturais sejam conhecidas.»

A resposta do poeta Teixeira de Pascoaes data de 5 de Janeiro de 1950: «[…] Feriu-me sobretudo, no desenho nítido das paisagens, a figura esboçada do Personagem principal. Nisto reside o maior merecimento da obra! O ser humano, porque é vivo, é indefinido, perante as cousas mortas ou simplesmente animadas. Este contraste, tão eloquente! no seu livro, porque faz resultar a verdade que vislumbramos no panorama do mundo, feriu-me, repito, duma maneira muito especial e original! […]»

Em 2004, aquando da reedição deste romance, Agustina Bessa-Luís recorda o tempo de escrita de Mundo Fechado. «Escrevi-o em Coimbra, tinha casado há pouco e a minha filha dormia à tarde no quartinho ao lado do nosso. Era o tempo que eu tinha para escrever, e via da janela o jardim calado e deserto, como é bonito ver os jardins. […] Impresso na tipografia Gráfica de Coimbra, ele foi integrado na colecção Mensagem, iniciada em 1941 por José Vitorino de Pina Martins.»

Em Mundo Fechado a autora conduz o leitor por uma paisagem vinhateira para contar a história de Pedro, o rapaz da cidade que vai visitar as tias à aldeia e procurar melhores ares para tratar uma fragilidade pulmonar que o afectara. Ao longo do enredo, Agustina não determina lugares em concreto, contudo a ele associamos a Casa do Paço, onde a autora passou grande parte da sua infância junto de suas tias paternas.

«A verdade é que as férias na aldeia não lhe faziam bem. Desta vez, pelo menos. Chegara na antevéspera, e vivia, desde que chegara, num humor acabrunhado, ocioso e cheio de pressentimentos. […] Sentia-se extraordinariamente cansado, vencido, ansioso por deixar aquela terra, a casa, as tias, e ir para algures, longe, talvez para uma praia triste onde pudesse olhar o mar duma janela aberta, e escrever um diário, com os pés nus enterrados na areia.»

Lugar recorrente figurado na obra de Agustina, é também na casa do Paço, na rua que tem hoje o nome da escritora, que vamos enquadrar o romance de 1954, A Sibila.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Sibila (1954)

Casa do Paço, Lugar de Travanca, Vila Meã, Amarante

Agustina Bessa-Luís concluiu a redacção do romance A Sibila a 16 de Janeiro de 1953 para o apresentar a concurso ao Prémio Delfim Guimarães, criado pela Guimarães Editores. Agustina concorre sob o pseudónimo Stravoguine, nome de uma personagem do romance Os Possessos, de Fiodor Dostoievski. A autora viria a vencer este prémio, como também o Prémio Eça de Queiroz, no mesmo ano da publicação de A Sibila. O romance foi acolhido pela crítica com entusiasmo, uma inovação literária que se distanciava do cânone neo-realista. A Sibila foi publicado no seguimento de Os Super-Homens (1950) e Contos Impopulares (1951-53).

A Sibila conta a história da recuperação por Quina, a Sibila, de um património familiar que gerações de má gestão tinham vindo a delapidar. O romance inicia com Germa, sobrinha de Quina, numa visita com o primo Bernardo à casa agora fechada, onde, «bruscamente, Germa começou a falar de Quina».

«Era em Setembro, e a casa, temporariamente habitada, expulsava o seu carácter de abandono e de ruína, com aquele calor de vozes e de passos que amarrotam folhelhos amontoados em todos os sobrados.» Ao narrar episódios do passado para enquadrar o tempo presente, vamos também conhecer a história dos pais de Quina, Maria e Francisco Teixeira.

Agustina referiu este romance, que lhe «abriu as portas das letras», em diversas intervenções ao longo da sua vida: «A Sibila abriu-me as portas das letras, com a sua família sacerdotal, com os seus provincianos de carreira, os amigos da fraternidade e os amigos da onça. Fiz amigos e inimigos, comecei a viajar, a interpretar os sinais de esquerda e os valores simbólicos de direita. D’Annunzio estava mal enterrado, Beckett aparecia na forma inovadora duma estrela fixa, eu continuava a comportar-me como filha de Deus, isto é, perfeitamente anormal segundo os critérios humanos. Tinha a inibição do mal, que é própria do narcisismo profundo. A quem interessar, esse tipo de inibição reconhece-se em Leonardo de Vinci.» (O Livro de Agustina)

«Para começar, [a Sibila] é uma figura de ficção porque permite que se imagine e se crie o tempo em que ela se move. E, por outro lado, é uma pessoa real. Viveu e morreu nos lugares que ainda hoje podem ser visitados, cerca de Vila Meã, onde a autora, ela própria, nasceu. A quinta da Vessada existe ainda, sem alterações nos seus limites e forma; a casa ergue-se sobre a grande eira de pedra com as sacadas onde se enrolava um pé de videira.» («A Sibila de todos», Caderno de Significados).

Num longo texto intitulado «Encontro com a Sibila num domingo de manhã», datado 29 de Setembro de 1996, Agustina retoma a personagem da Sibila, «nascida na Casa do Paço, que no romance tem o nome de Casa da Vessada, era a penúltima de nove irmãos e a mais nova das raparigas. […]» (Contemplação Carinhosa da Angústia)

É pois na Casa do Paço que seleccionámos para leitura dois excertos do início deste romance:

«‒ Há uma data na varanda desta sala ‒ disse Germana ‒ que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a ruínas toda a estrutura primitiva. Mas a quinta é exactamente a mesma, com a mesma vessada, o mesmo montado, aforados à Coroa há mais de dois séculos e que têm permanecido na sucessão directa da mesma família de lavradores.»

[…]

«Desde a morte de Quina, nunca mais a casa tivera aquela emanação de mistério grotesco ou ingénuo […] Ah, Quina, tão estranha, difícil, mas que não era possível recordar sem uma saudade ansiada, quem fora ela? Joaquina Augusta nascera nessa mesma casa da Vessada, setenta e seis anos antes.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Incuráveis (1956)

1. Rua dos Camilos, Peso da Régua

Agustina Bessa-Luís concluiu a 7 de Junho de 1955 a redacção do romance Os Incuráveis, cuja publicação se deu no seguimento do êxito obtido com A Sibila.

A Guimarães Editores publicou a primeira edição em Abril de 1956 e a segunda em Abril de 1982, em dois volumes, o primeiro com o subtítulo «Os Retratos» e o segundo «Os Irmãos». Em 2014, a mesma editora voltou a juntar as duas partes num só volume, numa edição Opera Omnia, e assim se manteve em edição posterior.

No artigo «O Douro», Agustina escreveu: «Os Incuráveis são a presença do Douro em todos os seus decretos de vida e de morte.» (Diário de Notícias, 23 de Outubro de 1993. Ensaios e Artigos, vol. I), pelo que é nesta região, nomeadamente no Peso da Régua, que começamos por enquadrar o romance.

Tomemos a Rua dos Camilos, a rua do comércio local e onde se encontra a Casa do Douro, para envolver a personagem de Alberto Cales nas «ruas musguentas do Peso».

A primeira parte d’Os Incuráveis tem como personagens principais «Alberto Cales, o marido de Petronila. Oriundo do Douro, fora morgado duma casa abastada que herdara muito cedo e delapidara depressa […]» e Petronila, que «era de origem castelhana». Alberto Cales e Petronila tiveram três filhos, Mariano, Felisa e Paloma, que também vamos encontrar na segunda parte do romance.

«Muito novo, como eu dizia, Alberto Cales estava rico. Acostumado à azeda vigilância de Alexandra, sua mãe, ou às cândidas recomendações de avó Flávia, viu-se de súbito senhor duma porção de dobrões, de terras em que a cepa se debulhava em oiro, como o burro mágico; aquilo atordoou-o um pouco, lançou-se numa vida perdulária, e a Régua, antro de marmanjos, filhos-família cultivadores de bastardos, de folias, onde o comércio de vinhos implantava essa lei proibida e febril que preside às terras de intercâmbio, sejam feitorias de Roma ou cidades do Oregon, arrastou-o para o seu ventre e, em pouco tempo, perdeu todos os haveres. Da aristocrata Canelas tinha aos poucos escorregado a importância para essa vila suja, em cujas valas se via o estripado das sardinhas, e cuja alma palpitava nos cais atulhados de cascos que seguiam nos barcos até ao Porto. Essa Régua, percorrida por galegos que vendiam rendas, e que, com as suas fortunas contempladas todas as noites com religiosidade a uma luz de sebo, desbancariam os nobres das ruas musguentas do Peso; essa vila, onde corriam peixeiras talvez mais tarde dignas de desafiar um Nucingen e o seu génio financeiro, absorveu durante um ano Alberto Cales, devorou-lhe as suas libras, escorreu-o de todos os bens e lançou-o de si como um desperdício, agindo assim como esses mecanismos diabólicos, sinais da era da técnica, que dum fruto extraem toda a utilidade e mesmo dum homem esfolam a pele, derretem a gordura, com a ferocidade grotesca das coisas automáticas.» (Parte I, «Os Retratos»)

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Incuráveis (1956)

2. Gervide e Lugar de Cales, Loureiro, Peso da Régua

Em Gervide, lugar de onde «não se via o rio», ficava a casa da «velha Tia Magna», que havia criado Rafael, filho do primeiro casamento de Alberto Cales, até à manifestação das suas primeiras crises epilépticas. O pai, à data, «retirou-o então aos velhos tios caducos e não o abandonou mais». Não muito longe de Gervide fica a pequena povoação do lugar de Cales.

«Gervide e o lugar de Cales ficam numa dessas plataformas aplainadas entre as vinhas, que é onde se situam todos os povoados e vilas do Douro. Sobre as encostas riscadas pelas paredes mal equilibradas de xisto e nas quais derramam uma sombra angustiada e poeirenta as oliveiras que circundam as vinhas, surgem esses lugares que têm a secura duma aldeia da Sardenha, e onde uma mal esculpida pedra de armas sobre um casebre faz cismar numa permanência de nobres de cabeleiras de rabicho que viajavam em liteiras estreitas como confessionários, trazendo consigo uma comitiva de mulheres orgulhosas cujas saias cheiravam a urina e a verbena, de padres empanturrados de assados e doces das clarissas, de camareiras leitoras da buena-dicha e cirurgiões que coscuvilhavam as notícias dos tratados com Inglaterra. Gervide […] possuía, quando aí se criou Alberto Cales, apenas um rasto da sua tradição nas figuras de dois velhos, Magna e D. Teodósio, que se aproximavam dos sessenta e viviam em pleno século XVIII, com as suas bouças com faisões e caruma que submergia um homem até aos joelhos; eram muito parentes dos senhores de Fontes, cujo palácio era distante um dia de caminho, no Alto-Douro, sobre as alcantiladas vinhas requeimadas pela filoxera e ao fundo das quais corria o rio escorado entre fragas cor de chumbo.»

Era também em Gervide que Alberto Cales «desde muito criança» «costumava visitar sua avó Flávia». (Parte I, «Os Retratos»)

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Os Incuráveis (1956)

3. Brás-Oleiro, Águas Santas, Maia

Brás-Oleiro é mencionado pela autora nos romances Os Incuráveis, Dentes de Rato ou A Ronda da Noite. Foi neste lugar, «perto duma ravina», que Agustina viveu alguns anos da sua infância com os seus pais e o irmão, e que hoje pertence à instituição O Amanhã da Criança. Nele ainda é visível o lago, embora entretanto intervencionado, que Agustina descreve na sua autobiografia, ou no romance A Ronda da Noite, rodeado de um «pequeno bosque» e com uma pequena ilha no centro.

Em Os Incuráveis, o lugar é descrito como um «lugarejo dos arredores do Porto, a que chamavam Lugar do Brasileiro e depois se corrigiu para Brás-Oleiro». Era onde vivia Paloma com o seu marido, António Bastian, cuja «fortuna viera-lhe do Brasil, de parentes que negociavam com lotes de terrenos para urbanização e depois que negociavam com frutas, com café, com mulheres», e os filhos. O lugar ficava «perto duma ravina funda onde se projectava um caminho-de-ferro, um chalé cuja expressão um tanto pimpona estava atenuada pelos leques duma enorme palmeira plantada defronte».

«Os filhos de Paloma eram três — Maria Loreto, que não tinha mais de cinco anos, Pedro e David, garotos enfezados, de génio precipitado e que, na altura, viviam internos num colégio de jesuítas.» (Parte II, «Os Irmãos») É Maria a personagem central de «Os Irmãos».

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Incuráveis (1956)

4. Rua da Boavista, Porto

Numa conferência que a autora proferiu em Março de 1984 na Universidade de Salamanca, intitulada «Os Incuráveis: Revelação e Criação» (Contemplação Carinhosa da Angústia), Agustina escolheu falar sobre esta obra «que me é particularmente querida» por ser um «olhar elegíaco sobre um tema, o da minha infância».

Num outro contexto, Agustina menciona o regresso à cidade do Porto com os seus pais e seu irmão José Artur. «A volta à cidade, a cidade do Porto, estava cheia de promessas. A grande casa da Rua da Boavista, com o seu fumoir e uma escada de jacarandá, era desse tipo confidencial que o burguês do Porto aproxima ao bom gosto.» (O Livro de Agustina) Neste seguimento, unimos o excerto que transcrevemos de Os Incuráveis a este tempo da «volta à cidade»:

«Maria voltou a residir no Porto. Vivia agora numa dessas casas como jazigos de família, de cujo corredor rompem gavetas com puxadeiras de bronze nas almofadas; o seu quarto estava voltado para a rua principal, o estridor dos camiões fazia abalar o prédio desde os alicerces, nada lhe parecia prometedor nem alegre, excepto quando, com a cumplicidade duma reminiscência de adolescente, de quando habitara outra casa na cidade, experimentava uma sensação ardente e sôfrega ao ver o anoitecer, os ardinas que lançavam os seus pregões, as luzes azuis derramando-se bruscamente nos passeios molhados. O anoitecer na cidade fora sempre para ela todo um espectáculo.»

«Sim, era muito belo o anoitecer na cidade, e mesmo de casa Maria esquadrinhava essa hora fantástica em que, nos quintais, as ameixoeiras floridas, batidas pelo foco duma luz de interior, brilham como esses ramos feitos de conchas que foram motivo de decoração no tempo do jazz, das nucas rapadas polvilhadas com pó-de-arroz. Havia umas traseiras listradas de muros, com árvores, galinheiros, pombais, um negrume de parque ao fundo e sobre contra cujos castanheiros parecia correr de vez em quando um vitoriano comboiozinho de brincar.» (Parte II, «Os Irmãos»)

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A Muralha (1957)

Jardim Arnaldo Gama

No romance A Muralha conta-se a história de três irmãs – Flávia, Noémia e Teresina – filhas de José Salústio, um pastor baptista e dono de uma tipografia na Rua Formosa. Acompanhamos o destino de cada uma delas nos casamentos instáveis e desolados. E as personagens vão-se desdobrando numa teia complexa entre descendentes e passantes. Gerson, filho de uma ligação de Vasco Gonfalim, marido de Flávia, com uma modista de Leça, deambula, um ser indefinido e perturbado, é o elo romanesco, misterioso, neste longo enredo.

Se há um cenário de beira-mar, constante, mas não exactamente localizado, embora com referência às casas dos sargaceiros, o que presume praias do Norte, há das mais belas descrições da cidade do Porto. Nos excertos escolhidos recordamos a personagem de Noémia que vive depois de casada, com Reymão, na zona ribeirinha, junto à Muralha Fernandina. Podemos ver um pano desta muralha no Jardim Arnaldo Gama. Deste jardim, descendo pelas escadas dos Guindais até à Ponte Luís I, por onde atravessamos o rio, avistamos de Vila Nova de Gaia essa encosta ribeirinha, e novamente a muralha e as duas torres que se conservam, ao cimo do Funicular dos Guindais.

«Quem desce de Gaia, com os olhos ainda presos à bonomia sólida e às vezes idílica dos subúrbios, ao seu mau gosto urbano e à sua vida comercial em seu sabor de horta com glicínias e água do poço, quem traz ainda consigo essa indiferença que as coisas felizes nos provocam, suspende-se de repente, ao encontrar a face da cidade. Está ela como que inclinada numa cordilheira, com o ar cativo, as faixas das ruas parecendo pendentes do casario desigual. A luz é doce sobre os telhados dum vermelho estagnado; paredes de folha ferrugenta, cores de cimentos sujos e os verdes húmidos dos socalcos onde outrora se talhavam talvez as vinhas, compõem uma expressão de profunda simpatia moral.»

[…]

«Toda a cidade com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto pendurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha. Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado.»

[…]

«A muralha infunde em nós uma doce tristeza europeia, um orgulho de actividade, um desenho de pompas escravas, um sonho económico e uma impraticável fé de liberdade. A muralha cresce com os seus pequenos palácios de beira-mar, os seus bairros insubstituíveis de lata e de papel, as suas casas bancárias, os crimes de venalidade e de injúria, e os alegres pais de família com uma mulher em cada braço.»

Neste romance, a Muralha Fernandina é um elemento metafórico da «alma» da cidade do Porto, «povoada de funcionários e mestres-de-obras, de colegiais, e artistas, ingleses colonialistas — e pelo capital. A sua alma é funda e profética, os seus costumes rigorosos mas não severos — e há mais espírito na sua gente de ilha, na sua gente crua de sentimentos e afeiçoada à desgraça, que nos altos patíbulos da raça onde se convertem os grandes a um passatempo de serões. Ela é a muralha, com a cintura rodeada de nevoeiros, generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça.»

Agustina retoma mais tarde esta incursão num artigo intitulado «Portus», considerando que, na origem, «Portus» «[…] pode ter dado o Porto de hoje, possivelmente depois da dominação romana fixou-se em lugar mercantil e ribeiro, independente mais tarde, duma história feudal.» E com «a Muralha Fernandina, ficou provavelmente constituída a praça-forte dos mercadores, que assim se defendia de razias e incursões, tanto de bandidos como de senhores de territórios».

Sobre a presença da colónia britânica na cidade lembra, no mesmo artigo, Júlio Dinis, que «descreve com bastante rigor documental as casas dos cidadãos britânicos no Porto, pintadas de preto e duma arquitectura dessa solidez funcional que é mais oportuna do que interessante. Eles definiam esse colonato comercial que foi também consequência duma vida portuária de transacção constante.» (Diário Popular, 7 de Outubro de 1971. Ensaios e Artigos, vol. I)

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O Manto (1961)

1. Terreiro da Sé, Porto

«[…] a vida é como um manto em que se arrastam todas as fúrias e ternuras do mundo, e que deixa ficar por toda a parte alguma coisa do seu calor e do seu peso. […] Todos transportam o manto nos seus ombros e o levantam à altura do coração, e deixam que ele caia no pó e o perdem nos caminhos onde acaba a história do homem.»

A versão publicada do romance O Manto tem a data de conclusão no Porto, a 16 de Março de 1961, e teve o seu lançamento no final desse mesmo ano. Este livro resulta de uma segunda versão que a autora começou por intitular Os Outros Filhos de Job, uma alusão à personagem bíblica, que após ter manifestado a sua devoção a Deus foi compensada com o dobro de tudo aquilo que possuía e perdera, não apenas com terras e bens materiais mas também com mais sete filhos e três filhas. Sobre o romance, Agustina escreveu na ocasião numa carta ao poeta argentino Juan Rodolfo Wilcock: «[…] Eu trabalho muito, é tudo o que posso fazer para me defender de contemplar o vazio em que a minha geração se encontra. Eu vejo a velhice dos meus amigos subir como uma onda de lama, os seus cabelos brancos, as suas rugas, a tranquilidade como que assombrada, de crianças grandes que perderam o tempo de brincar. É terrível, querido John. Os outros filhos de Job são esses, os da prosperidade vazia, sem dores, sem causas, sem batalhas. […]» (Porto, 10 de Janeiro de 1961)

É no «Terreiro da Sé, à meia-noite», que começamos por nos deter na atmosfera deste romance: «Um sino ao longe expande a voz de soprano, segue-se o baixo profundo duma igreja cujos azulejos azuis brilham sob a poeira. Os Congregados, São Francisco, os Clérigos, rechinam, cantam, dobram, solfejam; e uns chinelos, de cujo tacão repicam os pregos, descem as cangostas, num passo honesto de doméstica que recolhe. Os anúncios das casas exportadoras despedem feixes verdes, na ponte diminuiu o trânsito, partiu-se em muitos pontos a fita de carros, e os tróleis vermelhos passam como elevados por um fio de aço. A meia-noite é ainda uma coisa sagrada e medieval no terreiro da Sé, tão só, tão despida de idade, tão pousada sobre a cidade como um palco dos altos num teatro do mundo, pronto ao desfile da vaidade e da arrogante abastança.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

O Manto (1961)

2. Rua da Pena, Porto

É novamente na cidade do Porto que vamos encontrar as várias personagens criadas por Agustina — Manuela, Lourença, Gracia, Purinha, Filipe, Álvaro Teles ou o capitão Marcelo. «O Porto é uma cidade do entardecer e uma presa nocturna», escreve Agustina, enquanto vai encaminhando o leitor por entre ruelas e percursos. «Era a hora em que ele [Álvaro Teles] saía com os cães favoritos, e, num passo ginástico e orgulhoso, fazia duas vezes o circuito da zona entre a Rua da Pena, Dona Estefânia e Dom Pedro V, voltando pelo íngreme Beco do Picoto.»

Agustina também fixa ambientes e sensibilidades sentidas pela cidade: «Enchem‑se as cervejarias, a casca parafinada do tremoço cobre o chão como confetti já gastos; um arrepio percorre as copas dos plátanos, não é frio nem vento, é o dilatar do próprio ar no fim dum dia de calor.».

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

O Manto (1961)

3. Rua do Barredo, Porto

A cidadela do Barredo, a parte interna por detrás do Cais da Ribeira, era frequentada por Lourença, «uma rapariga entregue a ocupações práticas» na assistência social. Sugerimos caminhar por este lugar a partir da Rua do Barredo. Sendo várias as referências no livro, transcrevemos duas:

«Lourença cumpria a sua missão no bairro famoso da beira‑rio onde outrora os arrais tinham dinastia; com o fim do tráfego por via fluvial, a cidadela do Barredo caíra na miséria e as suas casas retalharam-se para albergar numerosas famílias provincianas que buscavam trabalho; depressa eram devoradas pela lei do bairro, pelo seu fatalismo, o seu cansaço, o recurso da esmola, que exigiam com uma arte de emboscada em pleno sol. Lourença era bem recebida, não a apupavam, não a desconcertavam, não lhe faziam críticas; nos terreirinhos, sob cuja areia se percebia a lomba das rochas, grupos de mulheres embrulhavam rebuçados por conta duma indústria quase comovente, de tão mesquinha e inábil que era; rebuçados desses que os garotos apontam nos bocais das mercearias e que melam com a humidade, a ponto de só restar deles um grão de açúcar que uma formiga pode carregar.»

«Lourença passava também de noite no Barredo. Sabia onde havia um degrau perigoso, uma rampa que é preciso forçar, um clarão de lâmpada que podia aproveitar, a lamparina na guarita de pedra, que sempre ardia abrindo um halo amarelo nos velhos muros; e, no escuro, uma voz às vezes prevenia‑a, com o risinho de quem a reconhecia […]»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

O Manto (1961)

4. Serra d’Arga

É na serra d’Arga que «Álvaro Teles tinha uma casa de proporções assustadoras que raramente era habitada. Ficava ela numa região chuvosa e atrasada […]»

«Raramente alguém demorava ali mais de quatro dias, apesar das lindezas inauguradas, das jarras azuis estampadas de barrocos ramos, da eira circundada por uma admirável muralha de alfazema.»

«Aquela casa ficava na margem esquerda, e tinha a batê‑la de frente o rijo vento norte; vento cavaleiro de nuvens azuladas e que, emparedado pelas montanhas manchadas de alvíssimo saibro, trazia das Galizas um pouco do cheiro dos seus hostales ou das suas veigas eternamente alagadas.» A casa da serra d’Arga tem uma presença constante a partir da segunda parte do romance, uma casa de refúgio e de encontro das várias personagens.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Quatro Rios (1964)

1. Casa do Paço, Lugar de Travanca, Vila Meã, Amarante

Os Quatro Rios é o primeiro romance da trilogia As Relações Humanas, que a autora dedica a seus pais, e que inclui os romances A Dança das Espadas (1965) e Canção Diante duma Porta Fechada (1966), que obteve neste mesmo ano o Prémio Ricardo Malheiros atribuído pela Academia das Ciências de Lisboa. A propósito da reedição da trilogia, Agustina escreveu: «[…] As pessoas que eu conheci e que esqueci, saem destas páginas como se saíssem dos túmulos de Nice. Foi assim que Dante fez o seu Purgatório, com memórias de casto esquecimento. […]» (Fevereiro de 2001)

O enredo de Os Quatro Rios parece assim ter lugar na região do Norte do país, conforme nos é sugerido no início do romance: «As pessoas de quem vou falar possuem todas uma identidade intrigante que é a maneira do Norte de abordar a metafísica. Incapazes de se privarem duma vizinhança sentimental com a vinha, o cereal e os animais, elas tocam, no entanto, pontos essenciais do conhecimento.» O ensaísta Eduardo Lourenço, por sua vez, no ensaio «Desconcertante Agustina: a propósito de Os Quatro Rios», enquadra o espaço do seguinte modo: «De um Minho arcaico que só parecia monótono, Bessa-Luís fez uma caverna de Ali-Babá de surpresas profundas.»

O enredo de Os Quatro Rios ramifica-se a partir da personagem de Albano, que embarcou ainda criança para o Rio de Janeiro com o seu irmão Joaquim. Albano é descrito como «a ovelha negra» dentre os seus cinco irmãos, «um jogador nato» em cujas mãos as cartas de jogar se tornavam «personagens vivas». Ele desloca-se entre o Rio de Janeiro, o Porto e a casa rural de família, sempre com uma presença no destino das outras personagens, de relações familiares. Destas destacam-se as suas irmãs, Maria e Teresa; Justina, a mãe; a tia Ana Maria e sua filha Glaura e o seu filho Clemente, que tomou «um dia posição nas letras».

Os Quatro Rios conduz o leitor a um espaço rural e a outro citadino, no caso, as regiões de Entre-Douro e Minho e a cidade do Porto, ou ainda as paisagens brasileiras, em particular, o Rio de Janeiro.

É na região de Vila Meã que começamos por evocar o narrador de Os Quatro Rios: «[um] grande vale que brilhava de nevoeiros nocturnos e percebiam-se a custo telhados e a negra vara de pinheiros. Um vale como que calcado por uma imensa mão que ajuda o corpo a levantar-se da terra; e havia sobre ele um vibrar de suspiros, ladridos, estalar de lenhas, dobrado salto das águas que correm da frialdade hostil do crepúsculo de Inverno.»

Neste vale estão construídas «muitas casas solarengas ou de grande lavoura edificadas sobre as colinas, nos cômoros pouco elevados à margem das ribeiras e donde se avistam aldeias inteiras, varadas de ladridos de cães, do chiar dos carros que avançam como esculpidos em lama seca».

E o narrador prossegue identificando «uma dessas casas» como sendo a casa de família de Albano, e onde se desenrolam vários momentos deste enredo. Neste excerto Albano visita Portugal vindo do Brasil, no mês de Maio de 1912. A casa, com «um correr de janelas de guilhotina, quadradas e pouco maiores que a boca duma rasa, aparecia, sem ornamentos além dum pé de vinha na sacada pavimentada de lousa, num pequeno cimo terraplanado nas suas eiras, quinteiros e tanques agaloados de velhos renques de tulipas; fazia um pouco de vento e era nessa hora, bela entre todas, em que escurece o sol de Maio e as cerejas negras parecem gotas de sangue coagulado nos ramos».

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Quatro Rios (1964)

2. Rua de Costa Cabral, Porto

Situa-se no Porto, na Rua de Costa Cabral, a casa da excêntrica tia de Albano, Ana Maria, e mãe de quatro filhas, a mais velha Glaura, que «teve longa vida e terá de ser uma personagem central desta história». A casa onde viviam aparece descrita como uma quinta de recreio de três pisos e que «estava revestida de dez mil e seis azulejos verdes, nem menos um; possuía preciosas esquadrias fenestrais de cantaria, e creio que quatro urnas flamínias animavam o seu frontispício». Esta casa seria mais tarde arrendada a cônsules americanos.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Quatro Rios (1964)

3. Rua Formosa, Porto

O casal Clemente, filho de Ana Maria, e Arminda vivia numa casa na Rua Formosa, sob a protecção do tio de Clemente, Albano, que os recebeu num prédio onde instalara um clube de jogo «recamado de espelhos, de colunas de gesso, de mármores negros desde as barbearias aos bufetes». Clemente e Arminda ficaram nesta casa por «empréstimo», «sem futuro determinado», embora Clemente procurasse um futuro nas letras.

Nos dois romances seguintes, que completam esta trilogia, acompanhamos o desenrolar da vida destas personagens, e de outras que vão surgindo, nestes e noutros locais.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

1. Rua do Bonjardim, Porto

No ano de 1967, Agustina Bessa-Luís foi premiada com o Prémio Nacional de Novelística atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação, com o romance Homens e Mulheres. Este volume dá início ao ciclo A Bíblia dos Pobres, que reúne os romances Homens e Mulheres e As Categorias, este último concluído em Agosto de 1969 e que a autora dedicou ao casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes.

Em 1967, Agustina já nos dava conta desta sua obra num depoimento para o Diário de Notícias, «Os escritores falam do que escrevem»: «Actualmente trabalho em revisão de provas, o mais duro e extenuante trabalho intelectual […] Mas respondo mais exactamente se disser que redijo e medito uma obra de vários volumes, a que chamei A Bíblia dos Pobres. O primeiro, Homens e Mulheres, deve aparecer no princípio do Outono. O segundo, As Grandes Mudanças, está também em conclusão. Tenho aqui ao lado esse manuscrito de letra negra e miúda.» (Diário de Notícias, 21 de Setembro de 1967. Ensaios e Artigos, vol. I) Com efeito, para integrar o ciclo A Bíblia dos Pobres, a autora escreveu ainda uma série de outros textos, datados da década de 60, mas que viria a abandonar. Estes textos foram reunidos em 2014 no volume Elogio do Inacabado, com prefácio de Silvina Rodrigues Lopes, que deu início à Série de Cultura Portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian. Este volume reúne os títulos: «Homens e Mulheres»; «As Grandes Mudanças»; «Coração-de-Água»; «O Caçador Nemrod» e «Os Meninos Flutuantes».

O romance As Categorias tem início no período revolucionário que sucedeu ao golpe de 28 de Maio de 1926, e que deu origem a uma ditadura militar. Na sequência dos eventos, o presidente da República Bernardino Machado resignou ao cargo, dando lugar à Presidência, de alguns dias apenas, do oficial da armada José Mendes Cabeçadas. Agustina enquadra as personagens neste contexto social, e no ambiente vivido nas ruas onde «as balas sibilavam» e «havia trincheiras ocupadas por civis». Refere-se à revolta reviralhista de Fevereiro de 1927, no Porto, organizada pelos republicanos contra a Ditadura Militar. Assim, situa uma grande parte do romance As Categorias em vários lugares, e com diversos percursos, na cidade do Porto.

É essencialmente em torno da família Claver que o romance se desenrola — Amadeu Claver, sua mulher e filhos, Samuel, Fabelina, Mimosa e ainda Quintino Claver, ou Octávia, irmã de Amadeu — entre outras personagens com quem se cruzam e se relacionam. E é na Rua do Bonjardim que começamos por enquadrar «O clã antigo [os Claver]», «nalgum casarão da Rua do Bonjardim, com quintais que produziam vinte pipas e se prolongavam até às pedreiras da Trindade». No lugar das pedreiras encontram-se, na actualidade, galerias comerciais, inauguradas em 2008.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

2. Rua D. Manuel II (no livro, Rua do Triunfo), Porto

A casa dos Claver na Rua do Triunfo é um pólo de memórias familiares e afectivas. E note-se que esta rua corresponde, desde o ano de 1940, à actual Rua D. Manuel II. A autora, porém, situou a história num ano anterior a esta mudança de toponímia: «Era em 1927.»

E são vários os momentos passados na casa da Rua do Triunfo, dos quais transcrevemos dois: «A filha que [Mimosa] deixou foi Teresa Claver, Tere; a avó criou-a na sua casa da Rua do Triunfo, no Porto. Para não apoquentar os leitores com uma genealogia que só tem como desculpa o não lhes dizer respeito, vou resumir os meus personagens a ponto de os tornar indispensáveis. Aos cinco anos Tere ficou órfã e o pai trouxe-a de Lisboa para ser entregue a Marita. Era em 1927. Leopoldo viu-a nesse ano, pelo Carnaval, vestida de pierrot, com um sinal de tafetá na cara, e lançando serpentinas douradas da varanda da Rua do Triunfo. Serpentinas douradas, só por si, era uma coisa fabulosa. Mas a pequena Tere, na sacada, com os pompons brancos da blusa, de um ridículo quase mítico, de pantomina triste, comoveu-o.
Quando da intentona de Fevereiro, a casa da Rua do Triunfo foi abandonada por algum tempo. As balas sibilavam nas ruas e havia trincheiras ocupadas por civis. Tere ouvia as criadas chorar no quarto do ferro; de noite deitavam-se no corredor, gemendo histericamente. Não pareciam realmente assustadas, mas sim tomadas de uma excitação de tipo erótico. Marita acabou por mandá-las embora ou distribuiu-as pelas propriedades, onde se fartaram de mandriar e namorar os caseiros. Na casa ficou só Nani, a ama, e Bastião, o criado de Samuel. Fez-se um silêncio encantado e sussurrante. As portas cantaram a sua canção florestal, as goteiras puseram-se a delirar com o peso da chuva; os vidrilhos dos lustres cumprimentavam-se com pequenos toques e vénias.
»

[…]

«Quando Quintino Claver vinha ao Porto e percorria, nos seus passos largos, habituados ao ar livre, as salas da Rua do Triunfo, um certo alvoroço comunicava-se a toda a gente. As criadas apressavam-se nos seus afazeres, falavam com mais estridência e acabavam às vezes por brigar entre elas. Acidentalmente partiam-se copos, perdiam-se coisas, o dinheiro rolava para debaixo das mesas.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

3. Rua de Sá da Bandeira, Porto

E saindo da Rua do Triunfo, a autora situa os Claver numa outra zona da baixa da cidade do Porto: «A grande casa dos Claver tinha sofrido modificações. Da antiga moradia da Rua do Triunfo, a família mudou-se para Sá da Bandeira; o general, avô de Marita, tivera ali a sua quinta, com profusão de laranjeiras e onde criara uma porção de meninas, algumas formosas, com botas de botões e cabeleiras como Cristos.»

[…]

«Anunciavam-se com regularidade os leilões de herdeiros. Marita tornara célebre a almoeda da casa da Rua do Triunfo, fazendo para ela convites como se se tratasse de uma festa mundana.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

4. Rua 31 de Janeiro, Porto

O senhor de Ratolla, um «revolucionário e muito homem da República», era presença assídua em casa dos Claver. Certo dia, «deparou, ao cimo de 31 de Janeiro, com uma barreira de sacos de areia. Os homens, com as armas aperradas, olhavam para ele com estupefacção. Deu-lhes cigarros. Desprotegido, de pé no passeio, ligeiramente encostado às persianas de ferro duma ourivesaria, ele fumava também pela comprida boquilha de âmbar. Era um dia húmido e triste; via-se, à distância, a agulha enevoada da Torre dos Clérigos.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

5. Largo dos Lóios, passando pela Rua das Flores até ao Largo de S. Domingos, Porto

«A palavra pátria pronunciada por ele [senhor de Ratolla] sacudia os homens e arrebatava-os até às lágrimas. Deram-lhe vivas. […] A lembrança de Marita tinha-se apagado nele. Meteu aos Lóios, desceu a Rua das Flores, foi bater a uma portinha no Largo de S. Domingos. Veio abrir uma mulher nova, de chambre folgado, cabelos crespos, olhos rasgados.»

Era também na Rua das Flores que se podiam encontrar «as amigas de Amadeu [Claver], mulheres pequenas, espertas, criadas nos terceiros andares da Rua das Flores, nos cubículos sobre as ourivesarias».

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

6. Praça da Ribeira, Porto

«Enquanto atravessava a Praça da Ribeira, uma granada veio-lhe a cair aos pés. Não explodiu, e o senhor de Ratolla, com o auxílio de populares, retirou-a da cratera que ela fizera na terra e levou-a com ele.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Bíblia dos Pobres II: As Categorias (1970)

7. Rua das Virtudes, Porto

Bastião, o criado dos Claver por cerca de quarenta anos, fora «nascido e criado em Gondomar, nas terras baixas e vizinhas da cidade, viera para o Porto era órfão da mãe; engraxava calçado num portal, e o senhor de Ratolla deu com ele numa tarde em que se propunha comprar um chapéu novo».

Ratolla pô-lo ao serviço numa casa particular, e depois «entrou ao serviço de Samuel Claver», de quem não mais se separou, chegando a conduzi-lo «às noitadas musicais em casas da Rua do Rosário, onde vivia uma gente sedentária e cismática que ainda formava os filhos na Bélgica em Engenharia Civil».

Era na Rua das Virtudes que ficava a casa da madrasta de Bastião, mulher «com os seios pendentes e o cabelo desgrenhado». Da casa, Bastião tinha esta memória: «A borra de café refervida apagava às vezes a chama; e sobrevinha um silêncio que o feria no coração, como se alguma coisa estivesse iminente, alguém fosse de repente atirar-se à rua ou morrer na sua enxerga de palha, nesse quarto andar da Rua das Virtudes. Havia palácios tornados albergues de muitas almas, as varandas de ferro embandeiradas de farrapos.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

As Pessoas Felizes (1975)

1. Rua de Cedofeita, Porto

O manuscrito do romance As Pessoas Felizes foi concluído a 7 de Outubro de 1974, tendo sido publicado o livro no ano seguinte. É um romance onde a autora se debruça sobre mudanças de valores, costumes sociais ou culturais, no caso, da sociedade portuense, tendo-se seguido dentro da mesma temática os romances Crónica do Cruzado Osb. (1976), centrado em Lisboa, e As Fúrias (1977), com um regresso à cidade do Porto.

A história tem início com a família Torri em Casal Pedro, «nos lugares populosos do rio Ave», e onde «Casal Pedro, Paradela e outros lugares eram atravessados por um caminho cheio de pó branco e farinhento». O enredo centra-se em Olga Manuela Torri, de diminutivo Nel, que, tendo perdido a mãe, Glória, com onze anos de idade, vai viver para casa da sua tia Florinda casada com João Afonso, no Porto, na Rua de Cedofeita. E embora sejam referidas de passagem outras ruas da cidade, é nesta rua que a autora situa uma grande parte da acção, cruzando as várias personagens, enquadradas numa época de transformações também estas existenciais.

No romance As Pessoas Felizes é na Rua de Cedofeita que a família Coelho de Sousa, «conhecidos pelos Carrancas», habita. É no cruzamento desta rua com a Rua de Álvares Cabral, na direcção da Praça Carlos Alberto, que situamos estes excertos descritivos:

«Numa casa de cinco andares, em Cedofeita, onde a rua já se alarga e tem direito ao nome de faubourg, com os seus jardins escuros e algum palácio de fachada pombalina, nascia uma criança. Cedofeita é a Chaussée d’Antin do Porto.»

«A casa, de cinco andares, era ela própria uma robusta secção de árvore, com raízes no solo de Cedofeita, antigo lugar de plantio, logo vizinho das quintas dos brasileiros de Álvares Cabral. Álvares Cabral, traçada já em avenida, com moradias do tempo das patacas, cheias de cantaria, de portões, de salões de baile e com loiça inglesa até aos sanitários. A casa dos Carrancas, essa brotava do chão de Cedofeita como uma árvore. Das caves subia a agonia inconsumada dos antepassados, com o fluido erótico da morte, das catacumbas e do segredo.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

As Pessoas Felizes (1975)

2. Largo de Mompilher (antigo Largo da Picaria), Porto

A personagem de Fausto era um amigo de João Afonso, marido de Florinda, «um céptico endividado» que «lia Thackeray e ilustrava com ele os seus amigos da Feitoria». A sua actividade era exercida Além-Douro, no Largo da Picaria, ou nas «proximidades do Hotel Aliança». Este largo situado no cruzamento da Rua da Conceição com a Rua da Picaria viu a sua toponímia ser alterada no início dos anos 40 do século XX. Contudo não é incomum denominar-se local e informalmente por Largo da Picaria.

O Hotel Aliança, por sua vez, datado de finais do século XIX situava-se na esquina da Rua Sampaio Bruno com a Rua do Bonjardim.

«O Largo da Picaria e as suas imediações onde se instalou um comércio de antiguidades, próspero depois do após-guerra e que se prolongou até à Travessa das Oliveiras e à Praça de Carlos Alberto, esse largo teve em tempos outra fortuna. Era um lugar afazendado, com casa setecentista e uma capela, que se degradou até à situação em que se vê agora. Essa capela, que parece que Nasoni desenhou, não tem hoje qualquer importância na desmazelada bifurcação do lugar.»

[…]

«O cavalheiro Fausto […] teve durante largo tempo um escritório de comissões e consignações no Largo da Picaria, situado numa dessas casas chapeadas de breu e cujos fogões de sala denunciam um passado britânico.»

[…]

«O cavalheiro Fausto gastava em três meses o rendimento das cepas e das oliveiras, e nunca pensava reformar outra coisa senão as suas letras bancárias. Quando viu que já ninguém o conhecia nas proximidades do Hotel Aliança, onde costumava hospedar-se, e que já ninguém lhe perguntava nada do seu tempo, como por exemplo as corridas de toiros da praça da Rua da Alegria, ele próprio optou pela reforma.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

As Pessoas Felizes (1975)

3. Rua do Breyner e Rua Miguel Bombarda, Porto

«Não sei se no Porto os avisados capitalistas tinham um trintanário encarregado de lhes vestir a peliça ao cruzar os canais da Rua do Breyner e de Miguel Bombarda. É possível. A história dos burgueses do Porto é tão desconhecida como decalcada nas metáforas dos românticos franceses.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

As Pessoas Felizes (1975)

4. Alameda Basílio Teles, Porto

Era entre a Casa do Sacramento, no Porto, e a quinta em Moira Morta, que o casal, Francisco e Nel, dividia a sua vida. Para situarmos o lugar onde vivia Francisco de Sousa, «sobre a ribanceira de Massarelos», sugere-se caminhar junto ao rio Douro, pela Alameda Basílio Teles, e avançar pela Rua de Monchique até à Alfândega do Porto.

«Ele vivia na Casa do Sacramento com o seu irmão Bonifácio, e ambos eram julgados excêntricos e pouco afligidos das virtudes viris em que o Porto ainda assenta a contabilidade dos negócios e a confiança das suas ideias democráticas. A Casa do Sacramento estava implantada sobre a ribanceira de Massarelos e, em tempos, propriedade de ingleses da indústria, tinha, com a pintura preta das paredes e as grandes janelas de guilhotina, um ar tétrico, à Edgar Poe.»

[…]

«Francisco de Sousa Barros era um homem cuja inteligência se parecia com uma herança que ele administrasse juntamente com a sua fábrica de panos e a sua cultura conventual. Ele e Bonifácio eram os netos dum deputado da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. A Casa do Sacramento, legada em usufruto ao primeiro descendente que lá nascesse, coube a Bonifácio; ela era sua legítima propriedade, mas optara por viver só no andar térreo virado a nascente. Tudo o resto deixara a Francisco e sua mulher, que mantiveram o estilo colonial inglês, com os fogões pintados de branco e os soalhos de boa madeira.»

[…]

«Sobre a alameda de Massarelos, um pouco para a direita, erguia-se a Casa do Sacramento, construída à maneira rústico-pombalina, com janelas corridas e telhados pintados de branco. Rodeavam-na terrenos alcantilados, jardins assentes em pedreiras com os seus miradouros sombreados por antiquíssimas glicínias. Os seus armazéns, cavados na rocha viva, estavam agora adaptados a garagens. Ainda se localizava neles o sítio das prensas e dos lagares; nos dias quentes, ao cair da noite, o cheiro do sarro entranhado na pedra subia até aos andares de cima como um bafo de mosto fermentado.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

As Pessoas Felizes (1975)

5. Praça dos Poveiros, Porto

«No Porto, grande parte da sua gente, se não fosse o sangue inglês que lhe dá às vezes um perfil marítimo, era feia como trovões. O mesmo acontece no Douro. Miguel Torga localizou na estação do caminho-de-ferro da Régua a pátria resumida da fealdade. Pois será. A beleza é uma questão de densidade atmosférica e de equilíbrio entre a razão e o gesto. A máscara responde ao rito. Pois será.
Quanto ao Porto antigo das pequenas sociedades, eu nada sei da tasca do Pepino que fez carreira no dicionário. Mas houve sempre no Porto um local de convívio em que o facies da cidade se imortaliza. O restaurante da Mamuda, aos Poveiros, é decerto o que corresponde à Estalagem da Rainha ou ao Estanislau da Batalha, de 1841 precisamente.
»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

As Fúrias (1977)

Rua da Cerca, Porto

As Fúrias é o terceiro romance que a autora publicou nos anos seguintes à revolução de 25 de Abril de 1974, precedido por As Pessoas Felizes, de 1975, e Crónica do Cruzado Osb., de 1976, tendo assim concluído uma trilogia que se ocupa da temática das transformações sociais, num país em ruptura com o seu passado político. O romance As Fúrias conta a história da ocupação de um palacete na cidade do Porto «por uma pequena multidão ruidosa». As Fúrias são aquelas que acordam «de tanto que gritam os povos “justiça!”» e «sacodem os seus membros gelados e dão caça aos assassinos, procurando o erro no coração mais dissimulado». Esta casa, situada na Foz, pertencia à família Rodom, e era agora habitada por duas senhoras de idade avançada: Olga Rodom e a sua criada Arminda. A casa está descrita logo no início do romance como um «grande palacete arruinado situado numa clareira onde crescia a erva, com raros brotos de gramínea», uma «casa de trinta quartos e dois salões de festas». Olga optou por se manter na casa partilhando o espaço com os ocupantes, apesar do incentivo das filhas para abandonar a casa onde enfrentava agora «toda a espécie de perturbações, gritos e olhares e até ligeiras alusões à sua qualidade burguesa». Ao longo do romance surge a presença e a crónica dos familiares de Olga, como o irmão Pedro, as duas filhas Ofélia e Mimosa, ou os netos de Olga, assim como os novos moradores.

O romance As Fúrias foi adaptado ao teatro com texto de Agustina Bessa-Luís e encenação de Filipe La Féria, e representado na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II entre 13 e 31 de Julho de 1994. Reuniu nos principais papéis Eunice Muñoz, Raul Solnado, São José Lapa e Diogo Dória, entre muitos outros actores.

A partir das descrições que se seguem, situamos a casa dos Rodom na Foz Velha, no Porto. Neste contexto, sugerimos descer a Rua da Cerca, e caminhar por algumas das ruas estreitas da Foz Velha onde ainda são visíveis os sinais de antigos palacetes, até à Esplanada do Castelo.

Nesta passagem do livro, localizamos a estreita Rua da Fonte da Luz, onde Agustina recorda os eléctricos que por ela passavam, procedentes do Passeio Alegre: «Situada numa das veredas da Foz Velha onde os trens passavam outrora com uma habilidade semelhante a uma pontaria, a casa, sobre os telhados baixos da vizinhança, tinha a vista da faixa do rio já crispada pelo mar aberto. Naqueles lugares, salvo algum movimento de grupos que se manifestavam sob a pulsação dos partidos, raramente havia trânsito. Certos arvoredos davam a impressão de cercas claustrais cujos muros tivessem sido derrubados. As paredes de reboco eram atingidas duma hidropisia que inchava nelas uns ventres húmidos, com musgos a desenhar-lhes a ossada. E sobre eles floria a japoneira quase em estado selvagem, com uns rebentos de fome nos braços descarnados, lisos como a pele do congro.»

[…]

«A casa de Olga, de pálidos azulejos azuis, tinha também estátuas no jardim; algumas ninfas que pareciam mais acolchoadas do que nuas e cuja licenciosa presença era completamente apagada por aquele aspecto de criadinhas de província. Era um jardim quase grandioso, com grande soma de árvores mais próprias para um parque inglês, do que para ensombrar dois quarteirões daquele burgo onde se implantavam os corredores das ilhas. No Porto há essa paisagem de Constable metida dentro de muros coroados de fundos de garrafas partidas.»

[…]

«A casa da Foz, que durante muitos anos ninguém considerava senão um património congelado, estava muito mal conservada. Porém, com os caixilhos descascados e as canalizações rotas, ainda causava boa impressão. Era o tipo do palácio de brasileiro democrata, que chega do Rio e contrata um professor das Belas-Artes para pintar alegorias nas paredes.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Fanny Owen (1979)

1. Vila Alice, Vilar do Paraíso, Vila Nova de Gaia

O romance Fanny Owen é inspirado num complexo enredo sentimental ocorrido no final do século XIX, tendo como principais intervenientes: José Augusto Pinto de Magalhães, proprietário da Quinta do Lodeiro, o escritor Camilo Castelo Branco e Francisca Owen (Fanny), filha de D. Maria Rita e do coronel inglês, Hugo Owen, um conselheiro do rei D. Pedro aquando do Cerco do Porto. No romance, Agustina Bessa-Luís recupera o tempo de juventude em que José Augusto e Camilo se apaixonam por Fanny, um amor ciumento e obsessivo que acabaria em tragédia. Camilo Castelo Branco foi um autor a quem Agustina Bessa-Luís dedicou diversos estudos, entre conferências, ensaios e textos teatrais, reunidos no livro Camilo: Génio e Figura.

Em 1981 Manoel de Oliveira apresentava o filme Francisca, baseado no romance Fanny Owen, de 1979. Nas palavras da autora, Fanny Owen «é um romance conduzido até mim através duma ideia que não me ocorreu a mim. Foi o caso de me terem pedido os diálogos para um filme cujo assunto seria Fanny Owen. Para escrever os diálogos tive que conhecer as circunstâncias que os inspirassem, e a história que os comporta. Assim nasceu o livro e o escrevi.»

Fanny Owen é um livro envolvido pelo espírito do romantismo oitocentista que se desenrola entre o Porto, Vila Nova de Gaia e a região duriense.

Foi nesta casa, hoje desabitada, em Vilar do Paraíso, no número 20 da rua que actualmente tem o nome de Camilo Castelo Branco, que o coronel Owen viveu com a sua família, ele que conservava «casa posta em Cedofeita e raramente era visto em Vilar do Paraíso». Camilo e José Augusto acabariam por também arranjar casa neste lugar de modo a ficarem perto de Fanny, na tentativa de conquistarem o seu amor. Esta casa, a Vila Alice, tem uma importante e definitiva presença em todo o romance. Podemos ver da rua, atrás dos portões gradeados, o nome da casa nos azulejos sobre a porta principal.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Fanny Owen (1979)

2. Rua de Cedofeita, Porto

«O rasto do coronel e de D. Rita assinala‑se numa quinta no Douro, depois no Porto, à Torrinha, na Rua da Sovela, e em Vilar do Paraíso, onde Owen escreveu o seu livro sobre o Cerco do Porto. A casa da Rua de Cedofeita corresponde já a um período menos claro da harmonia conjugal. Raul Brandão, que os viu através de testemunhos mais directos, deixa transparecer uma incompatibilidade entre as fantasias mesquinhas duma burguesa rica e a ingénua severidade do fidalgo galês. Ele tinha por timbre um galo de prata e a divisa “Alert and Loyal”. Para cumprir com tal divisa, impõem-se sacrifícios; um deles foi decerto o de separar‑se da mulher e dos filhos.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Fanny Owen (1979)

3. Praça da Liberdade (antiga Praça D. Pedro), o extinto Café Guichard; Praça da Batalha (antigo Largo de Santo Ildefonso), o extinto Águia d’Ouro

«Não se pode dizer que houve um plano no caso de Fanny Owen. No entanto, Camilo comportou‑se como se obedecesse a um traçado minucioso. Quando saiu de Coimbra não voltou para Vilar do Paraíso; voltou para o Porto, e todas as vezes que José Augusto o procurou não pôde encontrá‑lo, nem em casa, nem em nenhum dos lugares habituais, o Café Guichard ou o Águia d’Ouro.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Fanny Owen (1979)

4. Quinta do Lodeiro, Baião

É em Baião que se situa a quinta do Lodeiro que pertencia a José Augusto. «Estes solares pobres que nasciam como refúgio de fidalgos arruinados e se iam acrescentando de varandas envidraçadas e alcovas em tabique onde luziam os ouropéis dos quadrinhos dos milagres, havia‑os no Douro em profusão. No rechão dum vinhedo, entre velhas figueiras pingo‑de‑mel; encravados nos “povos” de calçadas escorregadias onde corriam crianças com o suspensório de pano atravessado no peito como a bandoleira duma espingarda; ou então em lugares com preocupações aristocráticas, dentro de muros com buganvílias e alguma outra trepadeira mais rara, caneleira chamada, ou flor‑das‑cinco‑chagas.
José Augusto vivia num sítio destes, o Lodeiro. Um tipo de morada que tresanda a dignidade desculpada de ser pobre pelo corpo da capela entre duas abas de habitação.
»

É aqui que Camilo vai passar uma temporada com o seu amigo José Augusto, «jovem proprietário da Quinta do Lodeiro» que «tinha uma particularidade mais ruinosa: fazia versos». Nesta casa Camilo encontrou «enciclopédias e romances de cavalaria» nas estantes.

«Chegando ao Lodeiro, Camilo encontrou José Augusto apeado do cavalo e a sacudir o poncho de lã que usava, como uma coisa original naqueles sítios. Trouxera‑o da Argentina um antigo, como ele chamava aos parentes de seu pai; também trouxera uma cabaça para tomar mate, com a cana de prata para beber. Estava no louceiro da sala de jantar entre pratos com frutas, das Caldas, e outros que tinham pintado o Bom Jesus do Monte.
Camilo não pôde furtar‑se a um arrepio diante daquela fachada de escasso pé‑direito e a capela com três degraus musguentos. O pátio lajeado fazia ressoar o casco dos cavalos; era um som vibrante e sobrenatural. “Belo sítio! — pensou Camilo. — Ou se fica santo ou doudo. Ou se comete um crime.”
»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Fanny Owen (1979)

5. Santuário do Bom Jesus do Monte, Braga

Com o estado de saúde de Fanny a debilitar-se de dia para dia, ela própria «teve a ideia de irem para o Bom Jesus do Monte passarem uma temporada. Diferente do que Camilo deixa supor, era ela quem manifestava desejos naquela casa e fazia com que se cumprissem. Ele [José Augusto] apressou-se a fazer-lhe a vontade, e, assim, depois de passados dois meses na Foz, foram em princípios de Abril para Braga e aí se demoraram quinze dias. Camilo foi vê-los ao Bom Jesus. Encontrou Fanny a ler, sentada num degrau da escadaria, e ela apontou para José Augusto, que vinha de cima em passo cadenciado.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Meninos de Ouro (1983)

1. Valadares, Vila Nova de Gaia

No romance Os Meninos de Ouro a autora retoma a reflexão sobre as transformações na sociedade portuguesa, a portuense em particular, sentidas aquando do período revolucionário de 1974. É em torno da personagem de José Matildes e de seus vínculos sociais e políticos que se desenrola o enredo deste romance. A autora descreve-o como: «Fidalgo rural, José Matildes não é ambicioso por ambição, mas por vingança. Produto dos códigos, das virtudes e das bizarrias do seu meio, José sofre de introspecção.»

Nele vão surgindo estas e outras presenças desde Mateus Alba Pereira e sua irmã Dessert (Adelaide); Maria Rosamaria Alba Pereira, filha de Mateus e mulher de José Moreira Matildes, «dos Matildes de Santa Catarina», ou Marina, a amante de Matildes, da «família dos industriais Torrão que há um século tinham ocupado um lugar cimeiro na sociedade lisboeta»; ou ainda o companheiro de Matildes na Assembleia Nacional, Márcio de Lima, que «pertencia à categoria dos felizes, gente entre o sensato e o optimista».

O romance Os Meninos de Ouro obteve o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, no ano de 1983.

É em Valadares que esta história tem início, quando Mateus Alba Pereira visita a sua irmã Dessert numa casa de saúde. «Mateus “Assanhado”, ou Mateus Alba Pereira, agora com cinquenta e oito anos, e de visita a sua irmã enferma, Dessert, nome da infância, era banqueiro e proprietário no Douro.»

[…]

«Na Gelfa e em Valadares construíram‑se em tempos casas de saúde que corresponderam, é certo, a uma época naturista mas que, a contar com os inconvenientes do clima marítimo, não seriam aconselháveis nos casos mais inofensivos de qualquer enfermidade.»

[…]

«Em Valadares está ainda presente uma dessas casas de saúde de uma nobre aparência, isto é, produzidas no convénio excelente que pode haver entre a função de curar e o espírito de captar a energia local, quase sempre uma energia endémica que o pinhal ou o mar representam. Quando esta história começa, a casa tinha já uma experiência e uma tradição.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Meninos de Ouro (1983)

2. Rua de Santa Catarina, Porto

É na Rua de Santa Catarina que a autora situa a casa de família de José Matildes, descrita no romance como «uma casa alta, de três andares, que depois foi vendida e adaptada a repartição pública».

«Maria Rosamaria era neta de Hipólita Alba Pereira, e, numa tarde de Novembro, dava a mão escurinha e descarnada ao mais promissor dos maridos: José Moreira Matildes, dos Matildes de Santa Catarina, de uma antiga propriedade portuense que rondava por Fradelos até Santo Ildefonso. Era um rapaz auspicioso, que tivera em Coimbra uma carreira sem reprovações, e que, sem dar nas vistas, tinha um potencial muito raro nos portugueses: o poder não era para ele uma consequência da classe patronal, era um destino a ser vivido, com todas as suas misérias e decepções, suas grandezas e seus desprazeres. Era, em suma, uma das poucas figuras favoráveis à tragédia que a pátria tem produzido depois de Alcácer Quibir ou depois de D. Pedro V.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Meninos de Ouro (1983)

3. Largo da Ramada Alta, Porto

A Ramada Alta aparece relacionada com a família dos Alba Pereira, nomeadamente com a mulher de José Matildes, Rosamaria, que «passou todo o tempo, até casar, em casa da avó Hipólita. Educara‑se em medíocres colégios, sempre em regime de externato e vivendo na casa da Ramada Alta que servia aos Alba Pereira como estação de muda nas suas viagens frequentes.»

[…]

«Grande, com varandas corridas de uns azulejos que pareciam riscado de avental, a casa da Ramada Alta era, nesse tempo, ainda confortável, apesar das escadas íngremes, no estilo das moradias de Amesterdão. A cozinha era na cave, e o elevador das comidas tão amplo que cabia lá dentro uma criança de quatro anos.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Os Meninos de Ouro (1983)

4. Fontelas de Cima, Peso da Régua

É na estrada que conduz a Fontelas de Cima, e na estrada que conduz a Armamar na margem esquerda do rio, e já pertencente ao distrito de Viseu, que se situam as casas das famílias Alba Pereira e Conceição.

«Mateus “Assanhado”, ou Mateus Alba Pereira, […] era banqueiro e proprietário no Douro. O prestígio local estava dependente da cultura de uma sociedade em constante crise de organização, ou pelas epidemias do seu vinhedo, ou pelos desgastes da avareza e da penúria. Por isso a palavra “banqueiro” não tinha qualquer hipótese de recepção gloriosa e era identificada com barqueiro, o Caronte das barcas do Moledo, que transportava feirantes e abades com o viático. Adeus fantasia cósmica de se parecer, na imaginação do povo, a um Zeus capaz de fazer chover ouro! Mateus Alba Pereira, na calçada de Fontelas de Cima, era o “Senhor Barqueiro” ou o “Assanhado”. E, como o viam pouco, guardavam‑lhe um respeito timorato, apoiado de maldoso riso, sem prazer.»

Arnaldo Conceição, por sua vez, era um amigo da família Alba Pereira, «um proprietário das cercanias de Lamego», e foi em sua casa que José Matildes conheceu Rosamaria Alba Pereira, sua futura mulher, «numa festa de Verão».

«Os Conceições e os Alba Pereira eram vizinhos, e os seus solares batidos pelos ventos do Marão erguiam‑se na estrada de Armamar e Fontelas como cruzadores meio afundados. Mas o recheio era ainda soberbo, com imensa variedade de oratórios e contadores indianos e umas voltaireanas de veludo verde que pareciam provir do próprio Castelo de Sans‑Souci.
Amizades herdadas, pois avós e pais também tinham sido vizinhos e amigos, ora o vento da cupidez as corrompia, ora caíam em abandono pelo tédio que até os grandes sentimentos acarretam. Os sentimentos arruínam-se como os edifícios. Os Alba Pereira e os Conceições tinham travado batalhas de generosidade e de traição, a ponto de, por dívidas solenes, por humilhações e paixões da honra, tentarem o assassínio. Se a amizade prevalecia na revelação daqueles insultos, morria‑se de pena, que era a cólera dos delicados.
»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Dentes de Rato (1987). Contos Amarantinos (1987). Vento, Areia e Amoras Bravas (1990).

1. Quinta de Cavaleiros, Bagunte, Outeiro Maior, Vila do Conde

Dentes de Rato é um livro infanto-juvenil inspirado em memórias de infância de Agustina, e é o nome dado à personagem protagonista, Lourença, uma criança que «fechava os olhos e acontecia‑lhe então uma aventura bonita, e conhecia gente maravilhosa». «Tinham‑lhe posto o nome de “Dentes de Rato”, porque os dentes dela eram pequenos e finos, e pela mania que ela tinha de morder a fruta que estava na fruteira e deixar lá os dentes marcados.»

Fazem parte da vida e das peripécias de Lourença, entre outros, os pais; os irmãos Artur, Francisco (Falco) e Marta; o Tio António; a professora D. Inês e os dois criados, Emília e David.

Em Dentes de Rato o pai de Lourença compra uma quinta, junto ao monte da Cividade, no interior, entre a Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Era a Quinta de Cavaleiros que a autora mencionou noutras obras, Homens e Mulheres, O Soldado Romano, Antes do Degelo, Cividade ou Colar de Flores Bravias. Em Cividade, escreveu: «Eu vivi em muitos lugares, e de um deles tenho a ideia estranha de que lá vivi por necessidade da minha iniciação no fantástico. Era uma terra perdida, ao norte de Bagunte, nome já por si cancioneiro e razoável de eficácia romântica. A casa em ruínas, com uma nogueira centenária no pátio interior, favorecia os improvisos da imaginação.»

Da Quinta de Cavaleiros, hoje, apenas são perceptíveis da estrada as ruínas da casa, coberta por uma alta vegetação, impenetrável. Contudo apercebemo-nos da dimensão do terreno que ocupa, na pequena povoação de Outeiro Maior.

A esta casa a autora dedica, em Dentes de Rato, os capítulos «Os Condes de Cavaleiros» e «A Cividade».

No excerto que se segue Agustina faz uma descrição da casa à chegada: «[…] quando se entrava no portão da quinta esquecia‑se tudo. A grande ramada deitava uma sombra quente, e os cachos de uva americana cheiravam a morangos‑bravos. Lá estava a casa, como uma igreja em ruínas. As salas podiam guardar uma carruagem com cavalos e tudo; nos corredores havia alçapões e, quando se abriam, viam‑se em baixo as cabeças das vacas. Os cornos delas batiam todo o tempo no sobrado, e aquilo, no meio da noite, fazia medo. Mas Lourença habituou‑se. Passou lá as férias de Setembro com Falco e o primo Dinis que andava no Colégio Militar. Nunca largava a farda e mostrava‑se por toda a parte como um príncipe antigo. Não entrava nas brincadeiras e ninguém sabia se lhe agradava alguma coisa neste mundo. As filhas da caseira espreitavam para ver e riam‑se como se estivessem sufocadas com um bocado de pão‑de‑ló.»

[…]

«O monte da Cividade era um lugar muito antigo. Os romanos tinham lá um quartel que servia para vigiar tudo em volta, e ainda se podiam ver restos das casernas e das habitações deles. Apareciam também púcaros de barro quebrados e até pulseiras de ouro. O monte estava ao lado da quinta de Cavaleiros e era como uma cabeça que saía da terra, com os olhos fechados. Da aldeia de Corvos ele só parecia um monte qualquer, e mais nada.»

«A aldeia de Corvos ficava em frente da casa de Cavaleiros; era preciso atravessar um campo muito maior do que um estádio de futebol para lá chegar. Era um campo onde dantes os condes faziam justas para se treinarem para a guerra, e Falco dizia que ele fora regado com sangue; por isso é que apareciam espigas vermelhas quando se colhia o milho. Mas dizia isto para assustar Lourença; só que ela já estava habituada.»

A esta história seguiu-se quatro anos mais tarde a publicação de Vento, Areia e Amoras Bravas (Dentes de Rato ‒ II Parte), que acompanha o início da adolescência de Lourença.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Dentes de Rato (1987). Contos Amarantinos (1987). Vento, Areia e Amoras Bravas (1990)

2. Casa do Paço, Lugar de Travanca, Vila Meã, Amarante

Lembramos no lugar do Paço o livro Contos Amarantinos, que reúne três contos infantis, publicado em 1987. Nele Agustina começa por referir numa breve introdução que costumava passar férias na casa do Paço, «uma casa de lavoura que ficava num vale». O livro resulta de um convívio com uma tia de Agustina, Amélia, que durante a noite «puxava pela ideia e recordava os contos amarantinos. Um deles era o do menino grão-de-milho». A mesma tia que inspirou a personagem da Sibila; «eu sempre pensei que a Sibila era a minha tia Amélia, vaidosa e com jeito para coisas de tribunais» (Conferência em Granada, Contemplação Carinhosa da Angústia).

Vamos também encontrar o Paço no livro Vento, Areia e Amoras Bravas, que inicia com a comunhão de Lourença e a morte da sua avó que vivia no Douro mas que nascera em Espanha: «Ouvia-se a água a cair nos tanques, de dia e de noite. A ramada punha no pátio uma sombra triste.»

Lourença «via-a sempre sentada no salão do Douro, a ler um jornal ou a fazer um trabalho de costura».

Outros lugares mencionados na história são Corrales del Vino, onde Tia Margô nascera; Loureiro, do avô Joanão; o lugar de Brás-Oleiro, onde havia uma «casinha no parque no lugar a que chamavam “do Brasileiro”» (também mencionado no romance Os Incuráveis); e Caxinas, onde vivia a Tia Ci «numa casinha quase pobre […]. As Caxinas eram o bairro dos pescadores»; e finalmente o lugar do Paço, ao qual Agustina dedica um capítulo.

«Vamos a ver porque Lourença gostava do Paço.
Primeiro, era um lugar fechado por um pinhal, o que fazia lembrar alguma coisa de misterioso mas protector. Ouviam-se os carros de bois carregados de mato, que era o tojo cortado para a cama do gado. Os carros chiavam para dar sinal de que vinham em segurança.
»

[…]

«No Paço respiravam-se a toda a hora acontecimentos. Lourença manteve pela vida fora essa sensação de novidade, de pretexto de vida e movimento. Acordava com a impressão de ter muitas coisas para fazer. Ia colher os ovos ao poleiro das galinhas, ajudava a fazer o pão e ouvia tia Amélia fazer contratos com os compradores do vinho. Ela era uma artista nessas coisas.»

[…]

«Nem em cem anos Lourença podia contar tudo o que aprendeu no Paço. As pessoas que lá conheceu eram as mais extraordinárias do mundo, como a Dona Carlotina que vinha consultar Tia Amélia a cavalo numa égua preta que se chamava Mariana.»

[…]

«Artur dizia que viviam em plena época de Gil Vicente, o que já era vontade de agradar. Mas Lourença gostava do Paço e de tudo o que lá havia: pessoas, garfos de ferro, potes da lareira onde nadavam carolos de milho. Quando tomava um banho, era certo ter na banheira alguns carolos de milho a boiar.»

[…]

«Lembrava-se que no Paço não tinha havido muitos casamentos; podia-se dizer até que era uma espécie de convento. Lourença gostava assim. Quando já não era criança e estava casada, lembrou-se do Paço como um lugar à parte, cheio de felicidade. As amoras bravas eram o símbolo dessa felicidade, que não parecia importante porque não era difícil de alcançar. Só depois se percebia como era boa e perfeita e tão perto do coração como do prazer de viver.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Prazer e Glória (1988)

1. Calçada do Ouro, Porto

O romance Prazer e Glória foi publicado no final dos anos oitenta e acompanha o percurso artístico da personagem, o escultor João Baptista Pinheiro, que se rodeia de seus filhos e mulheres. Nele acompanhamos a ascensão do escultor desde a juventude, nos anos vinte do século XX, até à década de setenta, aquando de um regime que, segundo o narrador, «favorecia essa casta pobre dos funcionários da monarquia, e elevava-se uma onda de emigrantes do poder, representados agora por uma geração pronta a colaborar na modernização da sociedade». Enquanto na década de sessenta «João Baptista assentou numa carreira que já não era prometedora, mas respeitada em todas as suas obras», na década seguinte «estava tão famoso e rico que já nada o podia desconcertar».

A autora faz ainda uma reflexão sobre a transformação da imagem do país ao longo de décadas preenchidas por «obras que marcavam a sensibilidade legalista, e os palácios de justiça levantaram-se como padrões da história e catedrais do primado forense», que ostentavam os comportamentos de uma sociedade burguesa onde «o corpo era um continente a explorar».

A história tem início na juventude de João Baptista, por ocasião do golpe de 28 de Maio de 1926, um período histórico que a autora já havia explorado no romance As Categorias, de 1970. E é em Lordelo do Ouro, mais precisamente na Calçada do Ouro, junto ao rio, que situamos João Baptista neste tempo, quando ainda vivia em casa dos pais: «João habitava na freguesia de Lordelo do Ouro, lugar não há muito tempo ermo em que se traçou o caminho da Foz, arborizado e percorrido pelos eléctricos amarelos.»

[…]

«Lordelo ficou uma área bilingue, com as quintas britânicas de belo acontecimento paisagístico; e com as gloriosas mansões de novos-ricos debruadas de sacadas e de escadarias de opereta. Pareciam em tudo cenários de teatro diante dos quais se podiam passar os dramas de Ibsen.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Prazer e Glória (1988)

2. Rua da Boavista, Porto

Foi nesta rua que João Baptista conheceu a independência para trabalhar e se libertar dos horários rígidos da casa dos pais. Foi aqui, em casa da sua tia Josefina, que «teve o seu primeiro atelier, num quinto andar da Rua da Boavista, nas traseiras. Via dali a cúpula da ardósia dum palacete mergulhado num desses jardins que guarneciam a cidade e lhe davam a respeitável teia das suas fragrâncias de limoeiros e de glicínias.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Prazer e Glória (1988)

3. Margem do rio Cávado, Braga

Aquando da consagração artística de João Baptista Pinheiro assinalamos nas margens do rio Cávado a casa dos Paulos, «como era conhecido o paço rural comprado por João Pinheiro». «Quem tinham sido os Paulos, já ninguém sabia bem. Ainda havia um lugar na estrada da Portela com essa designação, e podia-se supor que houvera um juiz corregedor no Douro com igual nome. Mas os Paulos do Cávado, em 1890, já viviam na casa, que fora provavelmente mandada construir por um bispo de Braga, como belvedere.»

A casa dos Paulos é representativa da fama e fortuna de João Baptista, um espaço «ao dispor dos filhos e da gente que os servia e educava». O escultor mandou construir uma outra casa no terreno, «onde morava e recebia», embora a casa dos Paulos fosse o local de reunião familiar e convívio. A casa está descrita como sendo de «traça italiana, dum piso só, varado por um corredor que parecia uma estrada real e no meio do qual, por artes completamente decorativas, estava uma banheira romana, de pórfiro, e que o povo tomava por uma salgadeira especial».

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Prazer e Glória (1988)

4. Rua de Cedofeita, Porto

Durbalina, Durba, é uma das filhas de João Baptista Pinheiro, cuja presença acompanha todo o romance, um ser misterioso, cheia de silêncios, povoados de uma vida dupla, e de transformações, como se de um ser invertebrado e desalmado se tratasse. Durba casa com Mário Orta, de uma casa burguesa de Cedofeita.

Os Orta «amontoavam livros e quadros, e a casa deles em Cedofeita era um museu de arte, com lustres de Murano e tapetes persas. Não tinham propriamente mau gosto, mas estavam fora de moda há trinta anos, no tocante à colecção dos mestres, na qual figuravam os Vuillard e os Arp.»

[…]

«Os Ortas, fechados na cripta de Cedofeita como grandes sacerdotes, convinham que os tempos eram de heresia e de dúvida. Mas não se deixavam abater pela renúncia, executavam todos os actos que eram necessários para que não se abrissem fendas na tela social ou, pelo menos, nas paredes da sua casa.»

Um dia, morre o velho Orta, avô de Mário, e Durba e o marido herdam a casa:

«Eles tinham herdado a casa dos Ortas, em Cedofeita, zona preservada e, de certo modo, espelho da cidade, com o seu comércio intrépido de pequeno negócio e o carácter burguês das varandas como dentaduras expostas. Durba sentiu um certo orgulho de proprietária ao entrar em contacto mais íntimo com os haveres dos Ortas. Era como um legado episcopal, com anel e báculo. Os impressionistas, a colecção de Pousão, os serviços da Companhia das Índias em vitrines com alarme, deixavam‑na indiferente como peso pecuniário; era antes uma paz tumular e profundamente ociosa, como estar deitado num quarto com cortinas brancas, a pensar em gente já desaparecida. O velho Orta durara muitos anos; por fim, era preciso acordá‑lo para dar‑lhe caldo por uma espécie de lâmpada de Aladino com flores de pervinca no bojo.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Vale Abraão (1991)

1. Rua Padre Teixeira de Carvalho, Ariz, Godim, Peso da Régua

Vale Abraão é um romance que tem a sua raiz temática em Madame Bovary de Gustave Flaubert. Manoel de Oliveira pediu a Agustina uma ideia para um guião que fosse uma réplica actual à Madame Bovary, tendo adaptado o romance no filme Vale Abraão. Agustina transportou para um meio rural português, nortenho, o mesmo tema do adultério com que Flaubert abalara a sociedade burguesa do século XIX.

Ema, que ficara órfã de mãe aos seis anos, foi educada pelo pai, Paulino Cardeano, e por «uma tia paterna […] que tomara o véu de noviça, mas não fizera votos», e se mudara para casa do irmão, com a intenção de acompanhar a educação de Ema.

Ema começa a revelar-se uma adolescente difícil, enigmática – «tudo nela tem um ar sinistro, a começar pela beleza».

Desejosa de sair de casa, de abandonar a vida provinciana e acanhada que ali levava, aceita casar com Carlos Paiva, um médico, viúvo, que tinha casa em Vale Abraão, Além-Douro. Livre do domínio familiar, e ao mesmo tempo insatisfeita com a vida de casada, «monótona e repetida», onde não encontrou qualquer estímulo, começa a descobrir a sua natureza leviana, amante do luxo e da grande vida social. Entra numa espiral de situações, de aventuras e de perigos, que a conduzem a um estado de abandono e de desistência.

O filme, por sua vez, estreou em 1993 e viria a ser premiado em diversos festivais de cinema, entre os quais o Prémio do Júri da Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio no Festival de Cannes, ou o Prémio da Crítica no Festival de Cinema de São Paulo.

O Romesal é o nome da casa em que Ema viveu solteira com o seu pai, na «margem direita do Douro, uma quinta mediana, com jardim sobre a estrada». A varanda onde Ema gostava de se apoiar para observar a estrada é uma das primeiras referências a esta casa:

«Ao desfazer a curva da estrada, era forçoso levantar os olhos para a figura ali debruçada; e não havia motorista que ficasse indiferente. O choque da beleza ofuscava-o, isto sem querer exagerar. Perdiam por momentos o controlo e eram rudemente projectados contra a parede; outras vezes chocavam de frente com o carro que subia em sentido contrário e que não tinha maneira de se desviar, posto que o muro da propriedade de Ema era uma espécie de baluarte com quatro metros de altura.»

Sobre as origens da casa do Romesal, fora Paulino Cardeano, o pai de Ema, que «tinha herdado a casa do Romesal duma avó que fora acompanhante duma senhora de título e que lhe deixou a propriedade. Pequena de rendimento, porque as vinhas foram distribuídas ao longo dos anos, por partilhas ou troca de outras vinhas, a casa representava ainda a antiga família, morgados de Gervide. Era um paredão corrido, com seis janelas de guilhotina e dois portões de armazéns por baixo. Os soalhos, assentes em vigas de castanho, deixavam passar pelas frinchas o odor fermentado dos lagares.»

É na casa vizinha da casa de Ariz, que visitámos com o romance Deuses de Barro, que situamos a casa do Romesal, pertencente à família Mello. Foi também aqui que o cineasta Manoel de Oliveira filmou algumas das cenas de Vale Abraão.

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Vale Abraão (1991)

2. Vale Abraão, Samodães, Lamego

É no lugar de Vale Abraão, na casa que pertencia à família Serpa Pimentel, destruída por um grande incêndio em 1997, que Agustina Bessa-Luís situa, no romance, a casa de Maria Semblano, personagem que «escrevia contos exemplares e tinha algum sucesso com a sua erudição pastoral», tendo Carlos Paiva como «consultor ortográfico».

Em 2007 a propriedade foi vendida, e deu origem a um hotel, onde foram efectuadas obras de reabilitação e de amplificação do espaço para a zona hoteleira. Actualmente nele funciona o Hotel Six Senses.

No romance de Agustina Bessa-Luís, é também neste vale que se situa a casa que pertencia a Carlos Paiva, marido de Ema, e que aparece mencionado logo desde o início do romance: «[…] há na curva que apascenta o rio pelo rechão areento, ao sair da Régua, um vale ribeiro de produção ainda privilegiada de vinhos de cheiro e que se estende, rumo à cidade de Lamego, comarca a que pertence, até às águas medicinais de Cambres. É o vale de Abraão, com suas quintas e lugares de sombra que parecem acentuar a memória dum trânsito mourisco que de Granada trazia as mercadorias do Oriente e, porventura, os gostos de pomares de citrinos e os vergéis de puro remanso.»

A casa de Carlos Paiva era apenas «um amontoado de sobrados, de pequenas salas e alcovas, e eidos que se foram juntando, como para se aquecerem, e que resultara num incongruente encosto de telhados e goteiras, portas esconsas e janelas desiguais».

Ao longo do romance a personagem de Ema estabelece comparações entre as casas que vai frequentando, como neste exemplo em que considerava que a casa de Vale Abraão «não se comparava com o Romesal. Era mais acanhada, mais escura, com móveis baratos, louceiros de alçado onde se viam muitas xícaras rachadas e pires soltos. As cortinas pingavam dos varões e não se tinham substituído desde que a última Paivoa se casara e fora viver para Lisboa. Há uns bons vinte anos.»

A Casa das Jacas é outra casa também situada em Vale Abraão, que pertencia a Pedro Lumiares, e onde Ema se apercebe da existência de um outro mundo e de uma sociedade rural mais deslumbrante: «Tudo começou quando Carlos Paiva a levou ao baile das Jacas. […] A casa, iluminada, florida, com o seu célebre centro de vermeil atribuído a um discípulo de Celini, pareceu a Ema um castelo que se abria por efeito de mágica. A grande álea de plátanos, cuja folha caía lentamente, estava cheia de carros cujos pneus rangiam no areão molhado. Tinha chovido mas fazia luar. O brilho das estrelas percebia-se por entre os ramos das árvores e dava à noite um tom de compaixão sublime.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Vale Abraão (1991)

3. Quinta do Vesúvio, Freixo do Numão, Vila Nova de Foz Côa

A Quinta do Vesúvio é uma quinta centenária mandada construir por Dona Antónia Adelaide Ferreira. No final dos anos oitenta foi adquirida pela família Symington, que recuperou a qualidade do vinho ali produzido, com a particularidade de manter as técnicas ancestrais da pisa da uva. No romance, a Quinta do Vesúvio pertencia a Osório, um amante de Ema.

«[…] construída no estilo barroco, com escadas de pedra e um terraço sobre o rio. Uma casa lendária, que cheirava a vinho fino, a aguardente vínica, a vinagres de cheiro.»

A casa representava para Ema uma evasão do seu casamento com Carlos Paiva:

«O seu refúgio era o Vesúvio. Chegava lá depois de muitas horas de marcha, num comboio a vapor, com transbordo, com gente meio selvagem, completamente desbocada, feliz na sua promiscuidade imediata e espontânea.»

Este lugar «causava admiração que tão solitários e agrestes caminhos fossem um dia explorados por gente aparentada na corte e com hábitos de cultura. Eram juízes corregedores, fidalgos de luva e espora. Osório tinha-se por herdeiro dessa gente rústica mas que não desleixava certas práticas cristalizadas em rotinas fantasmas. Chamavam cantores célebres para, com as janelas abertas sobre o rio, então cristalino e pedregoso, darem concertos espirituais. Dizia-se que Banti fora ao Vesúvio, assim como Caruso fora a Manaus. Ema ouvia contar a Osório essas coisas, caía num cismar respeitoso, deixando-se aparentar à família com o que tinha de saudoso pelo Romesal, as salas de Verão, com esquadrilhas de moscas e os estores brancos corridos. Exagerava o gosto e o luxo da solteiria, descrevia o pai como um titular e a mãe uma senhora fina dos Guedes de Loureiro.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Jóia de Família (2001)

1. Rua da Pena, Porto

Jóia de Família corresponde ao primeiro volume da trilogia O Princípio da Incerteza, romance adaptado ao cinema pelo cineasta Manoel de Oliveira em 2001 com o título O Princípio da Incerteza. Neste romance colidem os temperamentos das personagens que se movem entre o Porto e o Douro, no qual a autora explora os vícios da noite e as consequências da infidelidade no matrimónio entre António Matos Clara e Camila, pela presença desestabilizadora de Vanessa, proprietária de um bar de alterne na região duriense. Mas outras personagens vão surgindo neste universo rural ou urbano, desde José Luciano, dito Touro Azul, filho da fiel criada Celsa; António, o pai de Camila e um viciado no jogo; aos irmãos Roper, leais conselheiros de Camila. Estes são os principais intervenientes num enredo que tem o delito como forma de vida, e a vingança como um meio de salvação.

A este romance seguiu-se A Alma dos Ricos, em que Touro Azul regressa como motorista de uma senhora rica, Alfreda, que após uma viagem a Jerusalém deseja ter uma aparição de Nossa Senhora. Este livro foi também adaptado ao cinema por Manoel de Oliveira, em 2005, com o título Espelho Mágico. Em Os Espaços em Branco, o volume que encerra a trilogia, a personagem de Camila vive em Lisboa.

Jóia de Família foi contemplado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o segundo que a autora venceu, tendo o primeiro sido atribuído a Os Meninos de Ouro, de 1983.

Assim, é no lugar da Pena que encontramos os irmãos Roper, Pedro Daniel e Torcato, os confidentes de Camila aquando do seu casamento com António Matos Clara.

«Nos lugares chamados da Pena, que tinham sido quintas de vinho e laranja, havia a casa dos Roper que descendiam de Thomas More, ao acreditar-se no que eles diziam. Eram eruditos com humor e figura, e que desde muito novo António Clara frequentou. Aprendeu com eles poesia e muitas coisas de teatro, em que eram versados pelo gosto e índole cénica. Em tudo punham talento de palco, elegância de quadro vivo. Os Roper, Torcato e Pedro Daniel, que eram Dacier pelo lado da mãe, viviam frugalmente, à moda de ricos escrupulosos.»

No capítulo III, intitulado «Os Roper», é descrita a «casa dos Roper, na Arrábida». «A casa estava erguida num lugar alto e pedregoso, rodeada por jardins em que predominavam as japoneiras. Havia camélias todo o ano e também jasmins do cabo de que os jovens da Ramada Alta se serviam quando tinham que vestir smoking.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Jóia de Família (2001)

2. Largo da Ramada Alta, Porto

Foi na casa da Ramada Alta que Rute deixou o seu filho, António Clara, marido de Camila, «onde estavam os outros irmãos […] com um perceptor e uma criada de meia-idade».

A casa na Ramada Alta pertence aos Aurelianos, «de onde saiu Rutinha e cinco irmãs crismadas de Aurelianas», «uma família de fabricantes de linhas de coser» e cuja casa «não impressionava pela arquitectura».

«Era um grande paquete de luxo com um tombadilho representado pela varanda a todo o correr da fachada. Para lá das portas de vidro da varanda estava a sala de receber, vermelha e verde como a decoração de Versalhes. As escadas eram medíocres. Os Aurelianos não gostavam de escadas ou não lhes davam espaço nos seus projectos. Era como se não dessem importância ao sexo. Ao que davam importância era à saída dos fundos, contígua a uma viela onde havia uma oficina de dourador.»

«Ou fosse porque a fama da Ramada Alta não lhe dava garantia de bom nome, ou porque a paixão pelo marido a cegava, Rutinha nunca lá parou muito tempo. Era uma casa alta, com duas varandas corridas, e azulejos da fábrica do Carvalhinho. […] A casa fora construída com um desnível que lhe dera uma imperceptível inclinação, o bastante para provocar fenómenos assustadores. Até aos doze anos António Clara andou por lá e não tinha medo. Era enfermiço mas bonito como o Sol.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Jóia de Família (2001)

3. Rua Sampaio Bruno, Porto

A cidade do Porto é mencionada como lugar de habitação da família de Camila, ela que «nascera no Porto, mas vivia na Quinta da Igreja desde que o pai caíra em más contas, que eram o jogo». É no antigo Hotel Aliança, na Rua Sampaio Bruno, que encontramos o pai de Camila, nas suas idas ao Porto para jogar.

«Antónia Clara não estava preparado para entrar naquela família cujos desastres mentais não eram superados pelo êxito financeiro. Viviam quase pobremente e o pai de Camila gastava tudo o que podia a jogar no Porto, para onde ia, primeiro para o Hotel Aliança, depois para um quarto de traseiras onde Camila esteve mais do que uma vez e que a impressionou pela inglória amostra de uma burguesia há muito arruinada.»

A António Clara «o que mais o decepcionava era a família dela. Admitindo que ela era a jóia de família, o resto era pechisbeque do mais ordinário».

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Jóia de Família (2001)

4. Quinta de Santa Júlia, Loureiro, Peso da Régua

A Quinta do Salto da Senhora é no romance o nome da Quinta de Santa Júlia, em Loureiro, lugar que o realizador Manoel de Oliveira usou para um dos cenários no seu filme O Princípio da Incerteza.

Esta quinta pertencia ao velho Matos Albergaria, tio de Rute, a mãe de António Clara. Conforme narrado na obra, «com um desses singulares caprichos que a senilidade torna sagrados, ele [Albergaria] destinara os bens para o sobrinho que nascesse na casa de família […]» Assim, foi António que ficou o proprietário da quinta, onde ficou a viver com Camila, sua mulher. Salto da Senhora também se associa às manobras de Vanessa, que usava a casa conforme a sua vontade, com o intuito de separar António e Camila.

Salto da Senhora «era um lugar alto e de onde se via a concha da Régua, com o que fora o antigo vale de Godim, um dos mais belos do mundo, abraçado por montanhas onde brilhavam lugares e casões de quintas. Ao fundo desfilavam os comboios de portinholas verdes com os números que correspondiam à classe escritos a tinta amarela. Os intermináveis “mercadorias” saíam do túnel da Régua com o seu matraquear dos vagões abertos carregados de pipas. Ouvia-se, muito claro, os ranger dos engates obedecendo aos travões. E parecia que a fita dos vagões se ia desconjuntar e deixar na via-férrea um desacato de pranchas e barros rolados. Ouvia-se o apito da locomotiva, estridente sobre todos os outros ruídos.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Ronda da Noite (2006)

1. Brás-Oleiro, Águas-Santas, Maia

A Ronda da Noite foi o último romance publicado por Agustina Bessa-Luís. Trata-se de uma história em torno de uma alegada cópia do quadro homónimo de Rembrandt, na posse da família Nabasco há muitos anos. A personagem de Maria Rosa Nabasco, «na sua vaidade mística […] habituara‑se a não duvidar. Para ela A Ronda da Noite era autêntica e tudo o mais que pudesse assemelhar‑se era pura falsificação.»

O quadro é como que uma parábola desta família, que vê n’A Ronda da Noite «um espelho onde se reflectem todas as suas aspirações, diversas consoante os que nele se vêem retratados ou simplesmente sugeridos» (António Mega Ferreira, no prefácio à edição de 2018). Este quadro da família Nabasco vai acompanhá-la durante várias gerações, pelas diversas casas em que viveram.

Ao longo do romance a autora também contempla a vida e a obra de Rembrandt: «O sentimento pagão e delirante vai impregnar A Ronda da Noite, que é terminada em 1642, ano em que morre Saskia, depois da filha Cornélia; é a segunda Cornélia, a primeira morre em 1638. O estado moral e mental do pintor seria precário, e é isso que dá profundidade a A Ronda da Noite. Pinta como se falasse consigo próprio, indiferente em desatinar, levado por um escrúpulo apenas quanto ao destino que continuamente lhe marca encontro. Interroga‑se, enquanto pinta. Os contínuos auto‑retratos dizem que se preocupa consigo mesmo.»

Ainda sobre o pintor, Agustina escreveu, neste mesmo ano, e a propósito de um diálogo que tivera na Póvoa de Varzim com o poeta José Régio: «Rembrandt sabia o que são as crianças, e o modelo que se parece comigo é a Saskia, na Ronda da Noite. Anda ali, no meio daquela gente pronta a marchar e a agitar bandeiras, e ela sorri como se estivesse segura de que era o lugar dela, na confusão.» (Jornal de Notícias, 19 de Março de 2006. Ensaios e Artigos, vol. III)

É na Casa do Cão, «assim chamada pelas suas dimensões apertadas no meio dum parque onde não entrava o sol», que a família Nabasco se vai instalar depois de ter deixado a casa de província chamada a Ronda, no Douro. Sabemos que aquando da revolução de Abril de 1974 a família Nabasco ainda habitava a Ronda, quando «Maria Rosa fez as malas, enrolou A Ronda da Noite e meteu‑a no forro da cavalariça, na Ronda. Foi para o Brasil passar umas férias que se anunciaram maiores do que o costume.»

No romance, a Casa do Cão situa-se no lugar de Águas Santas, e aparece descrita como tendo um «pequeno bosque de árvores raras e, no meio do bosque, um lago, com uma ilha. No meio da ilha um pinheiro rasteiro e a sombra inquietante dos seus ramos. A propriedade, de recreio, como eu disse, estendia‑se em u, ladeada por tílias gigantes. Ao lado havia uma bouça onde pernoitavam os pavões que, como se sabe, gostam dos ramos altos. A lenda de que os pavões trazem desgraça não sei de onde veio. O seu grito estridente talvez concorra para a triste fama que têm. Mas a verdade é que o antigo dono de Águas Santas se suicidara pondo o cano duma arma de caça debaixo do queixo e disparando. Tinha construído uma garagem no lugar duma capela que mandou arrasar, e aquilo contribuiu mais ainda para o mau nome da propriedade.»

Esta casa que ocupa uma grande parte do romance foi trocada pelos Nabascos pela casa do Torreão Vermelho, à qual a autora dedica o capítulo VI: «Com o peso dessa má fama, Maria Rosa Nabasco não descansou enquanto não mudou de casa. Mudou para outra maior, na vizinhança, mas nem por isso se desfez no seu espírito a aura da fatalidade. Filipe Nabasco, antes de morrer, fez um pedido estranho. Quis que A Ronda da Noite voltasse a ser posta na parede da sala de jantar, caso o Torreão Vermelho viesse a ser comprado por Maria Rosa.»

A compra do Torreão Vermelho, na vizinhança da Casa do Cão, por Maria Rosa, «obedeceu em parte à necessidade de resgatar A Ronda do seu cativeiro na província. O Torreão Vermelho, além de possuir condições para abrigar o quadro (3,63 m por 4,37 m) deixava respirar livremente A Companhia do Capitão Frans Banning Cocq preparada para avançar, mas ainda surda a uma ordem que estava a ser dada. Não lhe obedeciam, era tudo.»

A autora descreve ainda a transformação da Casa do Cão, quando Martinho Nabasco, neto de Maria Rosa, a foi rever anos depois, e encontrou uma casa «reduzida a uma creche ou coisa que o valha, ainda viu uma tábua vermelha a flutuar no que tinha sido um fabuloso lago de jardim, com uma ilha ao centro onde se derrubavam os ramos dum pinheiro que era como uma selva inteira em miniatura.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Ronda da Noite (2006)

2. Rua de Belomonte, Porto

No romance A Ronda da Noite é também referida uma casa da Rua de Belomonte, que Martinho Nabasco, o neto de Maria Rosa, já não conhecera, e «que tinha a cozinha e a sala de jantar no terceiro andar voltado ao rio. Ao que parecia, era uma casa mítica. Às seis horas da tarde abria‑se a porta do quintal aos cães e eles subiam pelas escadas como um esquadrão da guarda. Iam para a cozinha, derrubando cadeiras, abanando as caudas como chicotes, ganindo de alegria. Eram cães de caça; e embora não houvesse mais caçadores em casa, alimentava‑se essa tradição com os setters bonitos, cor de fogo, cujo pêlo luzia ao lume do fogão de lenha. Porque até muito tarde se cozinhava a lenha, e se usava a lenha para os fogões de sala. Ouvia‑se o crepitar das achas secas como um ruído de bom augúrio na manhã enevoada. O rio tinha ainda humores de estação, crescia no Inverno e acumulava nas margens laranjas e traves partidas; e algum cabrito morto vinha na corrente, rápido na flor das ondas já invadidas pelo mar aberto.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

A Ronda da Noite (2006)

3. Cemitério da Lapa, Porto

O Cemitério da Lapa é mencionado no romance A Ronda da Noite como o lugar onde estavam sepultadas umas criadas da família Nabasco, assim como Patrícia Xavier, amiga de Maria Rosa Nabasco, que «ficou sepultada numa antiga capela do Cemitério da Lapa, duas vezes assaltada depois da Revolução dos Cravos. Tinha as proporções majestosas dum andar de boa área, um T1, digamos assim. Velhas rendas pingavam do altar, donde os candelabros de prata tinham sido roubados; e, por terra, jaziam alfaias do culto, o suporte do Evangelho e umas galhetas com borras de vinagre. O lampadário, que viera de Veneza, também faltava. O ar era húmido, havia infiltrações e os ratos tinham roído papéis, talvez pagelas com a vida dos santos ou restos de bouquets amarrotados como lixo e deixados a um canto.»

Círculo Literário Agustina Bessa-Luís