Desde os primeiros escritos que Agustina Bessa-Luís escolhe um lugar, uma casa, uma paisagem, para aí fazer circular os seus personagens. Não quer dizer que pertençam exclusivamente ali, poderiam existir noutros lugares, climas e sociedades, mantendo o comportamento e o destino. Porque o que se move é a alma, e essa habita todos os lugares e todos os tempos, ao mesmo tempo, sem neles se fixar para sempre. É isso que torna a sua obra intemporal, e não o local.
No entanto, e porque Agustina em nenhuma das suas obras se desprende de si própria, pareceu-nos que este exercício de seguir os rastos das suas paragens inspiradoras podia ser também um contributo memorialista da própria Agustina.
Assim, escolhemos para apontamentos da nossa viagem a cidade do Porto, o Douro e o Minho, deixando para outros roteiros outros caminhos percorridos na vasta obra de Agustina.
Imaginemos um passeio pelo mapa caminhando por aqui e ali, na companhia de uns e de outros, e nas suas falas; parando, para olhar uma rua, uma casa, um vale, uma ruína; ou para sentir um silêncio que nunca foi interrompido. É possível ainda localizar, lembrar, imaginar, e isso transporta-nos para dentro dos cenários, num convívio próximo e privilegiado.
Resta-nos agradecer à Fundação Millennium bcp, na pessoa do Dr. Fernando Nogueira, com quem foi assinado o protocolo de apoio mecenático a esta iniciativa que agora se concluiu e se apresenta ao público, com o desejo de que constitua mais uma nota que estimule a um novo convívio com Agustina.
Mónica Baldaque
Presidente da Direcção do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís
PORTO
DOURO E MINHO
No romance Os Meninos de Ouro a autora retoma a reflexão sobre as transformações na sociedade portuguesa, a portuense em particular, sentidas aquando do período revolucionário de 1974. É em torno da personagem de José Matildes e de seus vínculos sociais e políticos que se desenrola o enredo deste romance. A autora descreve-o como: «Fidalgo rural, José Matildes não é ambicioso por ambição, mas por vingança. Produto dos códigos, das virtudes e das bizarrias do seu meio, José sofre de introspecção.»
Nele vão surgindo estas e outras presenças desde Mateus Alba Pereira e sua irmã Dessert (Adelaide); Maria Rosamaria Alba Pereira, filha de Mateus e mulher de José Moreira Matildes, «dos Matildes de Santa Catarina», ou Marina, a amante de Matildes, da «família dos industriais Torrão que há um século tinham ocupado um lugar cimeiro na sociedade lisboeta»; ou ainda o companheiro de Matildes na Assembleia Nacional, Márcio de Lima, que «pertencia à categoria dos felizes, gente entre o sensato e o optimista».
O romance Os Meninos de Ouro obteve o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, no ano de 1983.
É em Valadares que esta história tem início, quando Mateus Alba Pereira visita a sua irmã Dessert numa casa de saúde. «Mateus “Assanhado”, ou Mateus Alba Pereira, agora com cinquenta e oito anos, e de visita a sua irmã enferma, Dessert, nome da infância, era banqueiro e proprietário no Douro.»
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«Na Gelfa e em Valadares construíram‑se em tempos casas de saúde que corresponderam, é certo, a uma época naturista mas que, a contar com os inconvenientes do clima marítimo, não seriam aconselháveis nos casos mais inofensivos de qualquer enfermidade.»
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«Em Valadares está ainda presente uma dessas casas de saúde de uma nobre aparência, isto é, produzidas no convénio excelente que pode haver entre a função de curar e o espírito de captar a energia local, quase sempre uma energia endémica que o pinhal ou o mar representam. Quando esta história começa, a casa tinha já uma experiência e uma tradição.»
É na Rua de Santa Catarina que a autora situa a casa de família de José Matildes, descrita no romance como «uma casa alta, de três andares, que depois foi vendida e adaptada a repartição pública».
«Maria Rosamaria era neta de Hipólita Alba Pereira, e, numa tarde de Novembro, dava a mão escurinha e descarnada ao mais promissor dos maridos: José Moreira Matildes, dos Matildes de Santa Catarina, de uma antiga propriedade portuense que rondava por Fradelos até Santo Ildefonso. Era um rapaz auspicioso, que tivera em Coimbra uma carreira sem reprovações, e que, sem dar nas vistas, tinha um potencial muito raro nos portugueses: o poder não era para ele uma consequência da classe patronal, era um destino a ser vivido, com todas as suas misérias e decepções, suas grandezas e seus desprazeres. Era, em suma, uma das poucas figuras favoráveis à tragédia que a pátria tem produzido depois de Alcácer Quibir ou depois de D. Pedro V.»
A Ramada Alta aparece relacionada com a família dos Alba Pereira, nomeadamente com a mulher de José Matildes, Rosamaria, que «passou todo o tempo, até casar, em casa da avó Hipólita. Educara‑se em medíocres colégios, sempre em regime de externato e vivendo na casa da Ramada Alta que servia aos Alba Pereira como estação de muda nas suas viagens frequentes.»
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«Grande, com varandas corridas de uns azulejos que pareciam riscado de avental, a casa da Ramada Alta era, nesse tempo, ainda confortável, apesar das escadas íngremes, no estilo das moradias de Amesterdão. A cozinha era na cave, e o elevador das comidas tão amplo que cabia lá dentro uma criança de quatro anos.»
É na estrada que conduz a Fontelas de Cima, e na estrada que conduz a Armamar na margem esquerda do rio, e já pertencente ao distrito de Viseu, que se situam as casas das famílias Alba Pereira e Conceição.
«Mateus “Assanhado”, ou Mateus Alba Pereira, […] era banqueiro e proprietário no Douro. O prestígio local estava dependente da cultura de uma sociedade em constante crise de organização, ou pelas epidemias do seu vinhedo, ou pelos desgastes da avareza e da penúria. Por isso a palavra “banqueiro” não tinha qualquer hipótese de recepção gloriosa e era identificada com barqueiro, o Caronte das barcas do Moledo, que transportava feirantes e abades com o viático. Adeus fantasia cósmica de se parecer, na imaginação do povo, a um Zeus capaz de fazer chover ouro! Mateus Alba Pereira, na calçada de Fontelas de Cima, era o “Senhor Barqueiro” ou o “Assanhado”. E, como o viam pouco, guardavam‑lhe um respeito timorato, apoiado de maldoso riso, sem prazer.»
Arnaldo Conceição, por sua vez, era um amigo da família Alba Pereira, «um proprietário das cercanias de Lamego», e foi em sua casa que José Matildes conheceu Rosamaria Alba Pereira, sua futura mulher, «numa festa de Verão».
«Os Conceições e os Alba Pereira eram vizinhos, e os seus solares batidos pelos ventos do Marão erguiam‑se na estrada de Armamar e Fontelas como cruzadores meio afundados. Mas o recheio era ainda soberbo, com imensa variedade de oratórios e contadores indianos e umas voltaireanas de veludo verde que pareciam provir do próprio Castelo de Sans‑Souci.
Amizades herdadas, pois avós e pais também tinham sido vizinhos e amigos, ora o vento da cupidez as corrompia, ora caíam em abandono pelo tédio que até os grandes sentimentos acarretam. Os sentimentos arruínam-se como os edifícios. Os Alba Pereira e os Conceições tinham travado batalhas de generosidade e de traição, a ponto de, por dívidas solenes, por humilhações e paixões da honra, tentarem o assassínio. Se a amizade prevalecia na revelação daqueles insultos, morria‑se de pena, que era a cólera dos delicados.»